sábado, 13 de outubro de 2012

Mcdonald's em Verde


Perto da Eco 92 ainda nem sabíamos direito o que era reciclável, reciclado e termos que hoje são tão conhecidos de todos nós.
Fiquei um pouco preocupado dias destes, quando descobri que perto de 70% dos brasileiros não sabem o que é atitude sustentável ou ação sustentável, mas chegaremos lá. As empresas e  as pessoas estão melhorando o entendimento do que o planeta necessita .
Dois dos personagens desta história são o Rogério Ruschel e a Vera Giangrande. Ele, hoje, consultor de Sustentabilidade, mas na época era planejamento  de uma grande agência de Relações Públicas , a AAB, do grupo Ogilvy, e a competentíssima Vera, já falecida, mas a personagem pioneiríssima de Relações Públicas no Brasil.
Era 1991 e eu, publisher da revista “Imprensa” no auge de sua credibilidade e da minha  como profissional. As ideias eram tantas e com os personagens  eram bem mais fácil de falar e  apresentar  nossas ideias -- não como hoje, que há dias tento marcar uma reunião com um profissional da publicidade;  já falei com o cliente dele e vou acabar mostrando o projeto antes ao cliente que a  ele. Mas a vida parece que anda rápido só para alguns e não para todos nós mortais  (rsrsrs...). 
Voltando à Eco 92 ,tive uma ideia maravilhosa para a época:  encartar na revista “Imprensa” um glossário de termos ecológicos em português e distribuirmos na Eco em inglês .  Convidamos o Rogério Ruschel para escrever, que atendeu prontamente nosso convite  -- sei que tem um exemplar em sua casa, único, pois nem a própria editora tem um exemplar sequer.
As redações teriam que conhecer aqueles termos tão comuns hoje, mas que na época eram “ecolomês”.
Aprontamos o projeto e lá fui eu vender, mas para minha sorte estávamos fazendo aniversário e na festa comentei com a Vera Giangrande e ela me falou que venderia aquela ideia ao McDonald’s. Eles, em 1991, ainda eram pequenos no Brasil e revista não seria a mídia ideal, mas a Vera era a dona do mercado de RP e fui na dela.
Passaram-se uns dois dias  e a Vera me ligou e me mandou falar com o diretor de MKT do McDonald’s, o Luiz Mario Bilenky, que tinha sido da Fotótica -- ele e o Marcos Gaiarça --  em cuja conta eu havia trabalhado quando era da DPZ e já nos conhecíamos.
Cheguei lá e o Bilenky  olhava, olhava e não falava nada. Ele era metido, mas certeiro, e disse:  “Se você fizer em papel reciclado eu aprovo já”. Disse que iria ver como faríamos e corri para a editora. Quando cheguei lá ainda liguei para perguntar se era reciclável ou reciclado e tomei uma bronca do Bilenky: “Reciclável todos são”,  quase me chamou de burro, o que, na real, eu naquele momento fui.
Corri atrás do fornecedor de papel reciclado, a Tanure, no Rio de Janeiro.  A gráfica Abril me disse que era a primeira vez que eles imprimiam em reciclado, o que foi uma aventura, pois papel rasgava muito fácil.
Fizemos a lição de casa e o cliente fez a dele e aprovou o projeto.
O Luiz Mário Bilenky  era daqueles que inovavam muito imprimiu a marca do McDonald’s  em verde em vez do vermelho -- foi a única vez que vi isso em se falando da multinacional dos sanduíches.
Tudo ia bem até a hora de colocar o grampo. As máquinas da gráfica Abril pipocaram e tivemos que correr para outra gráfica com as máquinas de grampear diferentes e que não rasgariam mais papéis.
Quem trabalha com revista sabe tudo: é na última hora e nós, para variar, estávamos a poucos dias de perder a data de faturamento.
Mandamos uma Kombi com a secretária do Comercial buscar e levar de volta à gráfica Abril. A   Adriana (ver história “Pomba Gira”), que no trajeto pega uma pagina e lê, justamente aquela em que o presidente do McDonald’s fazia a apresentação  --  e não é que havia erros de digitação ou datilografia? E tudo atrasado, ficou pior ainda.
Liguei na fabrica de papel, não tinha mais. Indicaram-me  a João Fortes Engenharia, que comprara um lote há poucos dias. Falei com um dos filhos do João, que me cedeu duas resmas que me salvaram a vida.
A Adriana ainda não era alcoólatra e me salvou a pele diversas vezes nos dezesseis anos que trabalhamos juntos.
Fomos os primeiros na imprensa nacional a imprimir  em papel reciclado. Os créditos são do Mcdonald's , Rogério Ruschel,  Luiz Mario Bilenky, Adriana Batistini, Gráfica Abril e, é lógico, com homenagem especial para Vera Giangrande, que  24 anos atrás já enxergava a importância da sustentabilidade, termo que nem estava no glossário, o ator principal deste texto. 

 

 

domingo, 7 de outubro de 2012

Dia de fúria em uma TV

Sempre digo que me arrependo do que não fiz, do que fiz não me arrependo. E esta história eu tinha que contar, mesmo com alguns nomes ficando de fora. Quem trabalhava neste período no mercado sabe de quem estamos falando.

Era já a terceira vez que o Luiz Fernando Taranto  – superintendente da Fundação Cásper Líbero – me chamava para trabalhar lá. O ano era 1996. Cheguei e fiz uma coisa que o Paulo Saad fez quando substituiu o Orlando Marques na Bandeirantes:  troquei todo mundo de sala e lugar e promovi a gerente três contatos, o Gilberto Corazza, o Marco Piccolo  e o Márcio Loducca – e o Luiz Carlos Stein de diretor, segurando a barra. Eu queria vê-los se matando; um era mais competitivo que o outro. O Piccolo brigava até no par ou ímpar; o Corazza, quem trabalhou com ele sabe; o Loducca também não era bonzinho. No dia seguinte, todos sabiam que a direção havia mudado.
Chegamos à CNT Gazeta o Stein e eu. O Stein quase me mata, pois falei que devia ter de um milhão e duzentos a um milhão e quinhentos por mês e na real tinha quatrocentos mil. Ele ia ganhar menos que na Editora Azul, com o Ênio Vergueiro, mas convenci o moço de que em dias estaríamos com um milhão e oitocentos a dois milhões. E não demorou muito – uns dois meses e já estávamos lá.
Naquela época, as televendas faziam a diferença, e eu era amigo de todos eles, a maioria convencida por mim a entrar no ar. Todos tinham uma cumplicidade comigo não falávamos de espaço, falávamos de dinheiro.
Mas a história foi uns seis meses depois que voltei e já todos estavam familiarizados comigo e com as gerências.  A disputa era ferrenha. O Stein e eu fomentávamos a competição entre as equipes e a coisa funcionava. Éramos um time, fazíamos festa todas as noites no Mexicano e tumultuávamos o mercado com a CNT Gazeta. A diferença eram o atendimento e os projetos. Nós podíamos tudo, era a época em que a Globo e o SBT não podiam nada, a Bandeirantes sempre cheia e não existia mais nada – a Ana Maria dava 1 ponto na Record  .Foi o ano que a J&J ganhou o ouro em mídia em Cannes anunciando no programa Mulheres um projeto nosso.
Em determinado dia, o Gersom Alvin, contato nosso, me diz que conseguira marcar uma reunião com o Rei das Televendas, de quem já falei aqui, numa história só sobre ele. Estava voltando mais uma vez, dentre tantas em que ele quebrava e voltava com outro sócio.
Imagine, ele já até estava anunciando com a gente e eu não sabia, nem ninguém!  Só soubemos quando estávamos com ele na reunião. Cheguei e lá estava seu Honor Rodrigues me esperando (ver O Rei do Televendas).
Pronto como sempre, montamos um plano enorme de veiculação e o Gerson, já contando a comissão. O novo sócio do Honor chama alguém para fazer os mapas e entra uma menina linda, jovem, ainda uns 24 anos e me apresentam a ela. Quando o Honor acabou de falar que eu era o diretor da CNT Gazeta, ela começa a gritar comigo sobre um concorrente dela que estava veiculando um desses pets de parar de fumar antes dela e com mais frequência, e eu, sem saber quem era aquela menina, ia mandar ela... Aí, o sócio do Rei do Televendas levanta e diz: “Não, é minha filha!”. Branco total, a menina gritando e eu nem sabia o porquê. Levantamos e fomos embora. O clima ferveu e a menina descontrolada continuou gritando.
Quando cheguei à Gazeta tinha telefonemas e até umas flores de agradecimento, pois ninguém reparou que eu ia falar um palavrão e passei ileso. Garantimos uma grana enorme no basquete do mês.
Naquela época, o Roberto Avallone estava doente e levava até a médica dele no “Mesa Redonda”, e também andava arrumando confusão no andar do Comercial. Naquele dia, mandei ele, doidão, embora, pois estava falando mau de mim na sala de uma das gerências e, como eram divisórias de biombos, eu estava atrás e escutei tudo. Eram umas 17 horas e, sorte, não havia contatos. O Avallone é amigo meu até hoje naquele momento estava bem doente mesmo.
Aquele dia não devia ter existido. Eram umas 19 horas e no grupo do Gerson o gerente dele ainda não sabia da nossa façanha com o Rei do Televendas. Estávamos conversando, quando ele chegou e falamos do que havíamos faturado. Ele também começou a gritar comigo e eu fui andando para minha sala e fechei a porta. E não é que ele derrubou a porta? Para minha surpresa, o Stein tinha ido tomar café na copa dentro da sala e quando a porta caiu ele estava lá dentro também.
Que merda de dia! Aquela pressão que impúnhamos dava certo no holerite, mas ferrou muitas amizades bacanas. Tudo aquilo foi muito punk. Comenta-se disso até hoje. Quando encontro subordinados de nossos contatos e gerentes, eles me falam sobre os métodos que são comuns até hoje, que seus chefes comentam (rsrsrs...).
A vida em uma televisão é uma tempestade em alto mar o tempo todo ,principalmente se você tem um barquinho para navegar dentro dela( CNT Gazeta) , se tiver um transatlântico como na Rede Globo é uma tempestade também com melhores condições de suportar.
Tive que mandar embora ou degolar, como falo desde o começo da profissão, um dos melhores amigos e profissionais que conheci. E, é lógico, nunca mais fomos amigos como éramos.        

domingo, 30 de setembro de 2012

Quem quer ser um milionário. Atari o 1°


Como muitos sabem, estou me reinventando como produtor de conteúdo, fazendo mestrado em cinema, já que no início era para justificar alguns projetos, estou lendo novos e antigos pensadores num curso tão bem alinhavado como este nos proporciona conhecimento e discussões inteligentes sobre todo tipo de  audiovisual. E agora estou tomando gosto por coisas como o tamanho do digital,  a rapidez que o cinema imprimiu para alavancar muitas das invenções que são fundamentais para se viver nos dias de hoje. E até quem sabe fazer um doutorado futuramente .Dar aula não faz parte dos meus planos pesquisar até que sim.

Neste ano e pouco, depois de trinta anos sem pisar em uma escola como aluno, é dei uns dois anos de aula na Cásper Líbero quando trabalhei na TV Gazeta SP em 1994  na cadeira de mercadologia, a pedido do reitor Amauri.

Às vezes nas aulas do mestrado pareço o personagem do filme indiano “Quem quer ser um milionário”, que ganhou o Oscar de filme estrangeiro. Para quem não viu, no filme o personagem entra num programa de TV com prêmios para quem acertar todas as perguntas. E ele acerta todas, pois viveu e sentiu na pele cada uma das situações perguntadas pelo apresentador do programa, mesmo sendo ele um assistente de telemarketing. E apanha como um cão a mando dos produtores do programa, pois ninguém entende sua vitória. Na universidade também apanho um pouco , o mundo acadêmico é tão estrelado quanto o da publicidade . 

Durante as aulas acontecem coisas como a discussão do porquê da Kodak quebrar. É porque ela não acompanhou a era do digital .Não ou também. Eu atendia a Kodak na época em que o gerente de mkt era o Máximo  1987 ou 88, e pior que isso foi a Fuji montar uma rede de lojas de revelação e a gigante americana ter que acompanhar, o que para as duas foi um tiro no pé – hoje você revela foto em casa na impressora. Ou nem imprime, passa de uma tela para outra – Tudo Tela.
Ou situações de mercado como uma aluna que atua numa grande agência e colocou para a sala toda que um dos maiores clientes do mercado estava investindo em internet 25% de sua verba e eu, dias antes com a bambambã da conta, ouvi que investia 12%.
Ou um aluno que disse que a TNT foi a primeira no cabo a dar um ponto de audiência e eu estava com a Dora Câmara e o Carlos Eduardo Ferrari, pai do Flavio no Ibope quando começaram as medições e o primeiro canal a dar um ponto foi o Cartoon Network para as crianças. Estava lá comprando a pesquisa Monitor, o primeiro depois da Globo que compra tudo, para a equipe de vendas da TV Gazeta.
Na aula de mercado, então, eu parecia um arquivo morto ou, como disse um amigo na internet estes dias, “o passado vive em mim”.  (Luiz Carlos Pereira, não achei assustador, pois alguém tinha que contar as histórias que ando contando para um registro da mídia e mercado, coisa de que não me lembro de outro ter escrito. O Luiz é saudosista mesmo, até com a profissão; nos conhecemos há muito tempo, estudamos juntos na ditadura e montamos o Centro  Acadêmico da Faculdade mesma que hoje faço o mestrado.  Devíamos pedir indenização. Não fomos presos, mas éramos bolinados pela direção. Flávio Cidade, Luiz Carlos Pereira, eu, Celso Cezar  – desculpem-me aqueles de quem não me lembro, ahhh tinham mulheres também rsrsrsr ,estamos falando de 1979. Lembro desta turma fazendo plantão nas esquinas da faculdade me esperando por causa de um manifesto escrito sobre a ditadura; os homens estavam lá para nos prender.)
Em uma das aulas me fez lembrar de fatos engraçados, que também presenciei,  como o lançamento do Atari pela Gradiente , o primeiro vídeo game ( tivemos o Telejogo mas...). Eu era o comprador de mídia na DPZ e o Caubi Vasconcelos, o Biba, se não me engano, o planejador. O mercado de videogames é algo em torno de 25 bilhões de dólares e, é lógico, está em pauta na faculdade de audiovisual tanto quanto os filmes, vídeos e internet.
Ah! Não posso esquecer também a alegria do Fernando Martos irmão do Pedro Barça quando o chamei e compramos seis meses de duplas com aplique de faca que saía para fora da revista Vídeo  da  editora Três , os joysticks – e isso deu problemas em outras revistas –, e também em outdoors. Pena que não tenho as fotos, mas os aplicadores de outdoor colocaram os joysticks na parte de cima em vez de embaixo.
Nem vou contar o que aconteceu na compra dos espaços da TV Globo com o Tarso Madeira. Deu um rolo tão grande que acabei sendo contratado por eles dias depois, e me mandaram para BH. Era muito jovem e, na época, entendi aquilo como uma promoção e não como um castigo?.
Lembro-me de um dia em que o Ricardo Corte Real passou lá na DPZ. Ele vendia uma publicidade nos orelhões da Telesp antes das ligações, imagine! Fomos tomar um café no Gimba e quando voltei parecia que o mundo ia desabar na minha cabeça. Quando alguém erra na mídia que você comprou, você errou. Seu c... é o de plantão, mas me salvei e estou contando a história. Foi quando chegou a foto do outdoor com o aplique na parte de cima. Aí, fizemos uns bonecos e mandamos para as revistas para que não saísse iguais a alguns outdoors.
São tantas as passagens que acabei escrevendo este blog para não ser um chato para os  alunos do mestrado e interromper a todo o momento as aulas de que tanto gostei nestes últimos semestres.  Ah! Quem não tem histórias para contar nesse mercado acaba tendo infarto ou bebendo até se esquecer do passado. Essa parte da história aconteceu em 2012.   

sábado, 22 de setembro de 2012

Ou lia mão ou vendia televisão- em Salvador


Em 2002, fui convidado para montar uma operação em Salvador com a Rede Bahia, afiliada da Globo  com a TV Bahia. O convite foi para um canal em UHF, a TV Salvador, que na época não tinha o menor sucesso comercial e de audiência.
Imagine, quando fui ver no mercado (rua) como era a opinião dos varejistas sobre a TV, de dez visitados, nove me diziam que a TV não existia e que era um golpe de paulista!
E fomos para lá ver como seriam as coisas. Na verdade, o que eles queriam era uma sociedade numa produção de pequenos clientes, pois os grandes ainda não viam o UHF com bons olhos. Acabamos fechando uma sociedade em nove horas de operação diária e as outras nove com programação local, produzida para a TV Bahia, que era reprisada na TV Salvador. Até chegarmos a fazer a gestão das dezoito horas diárias da TV.
Tivemos muita dificuldade até chegar ao fechamento, pois os custos eram muito altos e, quando já achávamos que não aconteceria, fechamos uma permuta com passagens aéreas e viabilizamos o fechamento do contrato.
Eu, como bom exotérico, achei que haveria algo do destino e, já na primeira ida para entrevistar um batalhão de possíveis vendedores, produtores e apresentadores, conheci no avião uma senhora benzedeira que estava se mudando de São Bernardo (SP) para Barreira (BA), de mala e cuia com a família para montar uma pousada. Naqueles papos de avião, me disse para procurar alguém em Salvador que pudesse me dar um panorama astral do porquê estava começando uma jornada em Salvador.
O RH da Rede Bahia, me ajudando, montou uma série de entrevistas com mais de trezentas pessoas. Fiquei quatro dias sem pôr o pé para fora do hotel Othon, do quarto para duas salas no térreo e ao quarto novamente. Eu não conhecia ninguém em Salvador e um amigo, o Luiz Carlos Foz, me indicou uma paulista que em um dos dias foi almoçar comigo e acabou sendo contratada para a produção, a Rita.
Imagine o desgaste que foi! Sozinho, passava um vídeo sobre o que seria nosso projeto para umas quarenta pessoas e contava as condições de contratação. Depois, quem tivesse interesse ficava para uma entrevista pessoal. Cheguei a São Paulo doente, uma loucura! O espiritual na Bahia é sem igual, de dor de barriga a mandingas mil, só morando lá para entender o estado de espírito dos baianos.
Na tardinha do terceiro dia me liga a tal da Rita e me fala de uma amiga dela – que também tinha uma filha hiperativa, sobre quem conversamos no almoço –, que era vidente, morava há anos na Itália e estava de passagens por Salvador. Seu sucesso, me disse a Rita, era enorme como vidente, tanto em Salvador como na Itália.
Eu que já havia no avião ficado interessado, naquela hora liguei para a vidente e marquei um horário para a noite daquele mesmo dia.
A Lúcia me atendeu como todos os videntes, leu os búzios, o tarô e bem no finalzinho da consulta tirou uma carta, dizendo que era um Mago da Lua. Eu perguntei o que era aquilo e ela me disse que eu deveria fazer algo exotérico. E não é que já fazia? Eu lia mão.
Quando sai do Canal 21, fui estudar inglês e MKT na Califórnia e uma aluna brasileira, senhora já, esposa do mestre cervejeiro da Schincariol, ganhou da filha um chaveiro que tinha as linhas da vida e começamos a ler uns a mãos dos outros em inglês. Imagine, até hoje, meu inglês é “meia boca”, e todos diziam que eu acertava tudo sobre a vida dos outros – e em inglês! Li mão de alemão, japonês, suíço.
Quando cheguei dos EUA, comecei a ler a mão das mulheres. Estava separado e isso me ajudou a namorar uma meia dúzia de três ou quatro.
Voltando à Bahia, quando disse à Lúcia, a vidente, que lia mão, ela me pediu que lesse a dela, e também me disse que acertara tudo.
No outro dia, ainda tinha na parte da manhã um papo com os possíveis contratados e à tarde, um encontro com a diretora da TV Salvador, a Cláudia Lima, que eu já conhecia, pois havia feito um estágio comigo em São Paulo no Canal 21 – e foi por isso que as coisas aconteceram em Salvador.
A Cláudia me pegou no hotel e fomos até o apartamento dela e do marido espanhol, diretor da Vivo para o Norte e Nordeste, que estava com uma paulista e a assessora de imprensa. Conversaríamos um pouco, pois eles também estavam indo para o aeroporto.
Cláudia e eu chegamos no mesmo instante em que o grupo que estava com o marido e, por coincidência do destino,  a paulista que os acompanhava era conhecida minha a quem não via há muitos anos, o que facilitou as coisas e as conversas naquele momento.
Contei todas as histórias daqueles dias maçantes, das entrevistas e, é lógico, sobre a vidente e sobre ler mãos.
Ah, todos ali pediram para eu ler as mãos! E não sei como falei para minha conhecida que ela poderia vir a ter uma doença. Ela, pálida, na mesma hora me disse que no carro, vindo para a casa da Cláudia, recebeu uma ligação do médico dela com a notícia de que estava com aquela doença, e todo mundo se calou.
Tomamos um belo vinho espanhol, fumamos um charuto cubano e fomos ao aeroporto. Ninguém mais falou de ler mão. A partir dali, só falamos de coisas leves e para cima com o astral.
Quando voltei a Salvador, quinze dias depois, já era para fazer o start up das vendas e descobri que todo mundo sabia dos meus dotes exotéricos.
Nas reuniões, sempre tinha o cliente, sua mulher, as filhas – e no fim da história acabava lendo a mão de todos e fechando o negócio, é lógico. Como disse acima, a maioria não acreditava no resultado do canal, mas na Bahia o exotérico te impulsiona para o futuro e saí ileso. Sorte, se não poderia ser taxado de charlatão e ser preso! O canal, no início, não dava resultado, mas a leitura das mãos ... (rsrsrs...)
Isso aconteceu durante bastante tempo, até que me casei com uma delas em Salvador.
Foram dez anos de TV Salvador e, se tivesse cobrado cinquenta reais de todas a mãos que li por lá, com certeza estaria rico ou com um turbante na cabeça, agora, em São Paulo.
Antes de começar a fazer sua venda fale de sexo, drogas e rock’n’ roll. Ah, e ler mão também funciona (rsrsrs...)!

domingo, 16 de setembro de 2012

Bati de frente com o Nizan . Será que ele soube?


Estamos falando do fim da década de 1990. José Claudio Maluf( jornalista do trade publicitário) e eu em minha sala no Canal 21, onde era o diretor-comercial, mas dirigia o “Imprensa na TV”, e ele tinha um quadro de humor no programa, que ia ao ar todos os domingos às 23h, produzido pela Vídeo In, do Ricardo Narchi e do Durval, e pela revista “Imprensa”.
Lembro-me bem da piada que estava contando, sobre um fato real que aconteceu na TV Gazeta  de São Paulo, em 1993.( eu contava para ele as piadas que ele contava num quadro de 4 minutos no “Imprensa na TV”)o Maluf era mau humorado e era perfeito para aquele quadro de piadas sobre publicidade ou fatos engraçados no mercado .
Logo que cheguei à Gazeta, perguntei quem era o “financeiro” da Fundação Cásper Líbero, e minha gerente de operações disse que era o Bertulli, um descendente de italianos, grande e tão grosso como seu tamanho, que não falava com o Comercial. Fiquei intrigado, pois uma boa relação com ele seria maravilhosa. A Gazeta, na época, faturava pouco mais de 200 mil dólares mensais. Era abril e o ano mal estava começando. Eu, voltando para TV depois de dez anos em revista, não podia fazer muito carnaval.E fiquei na minha até reverter o quadro e ganhar a confiança do Bertullão.200 mil dólares por mês ele não tinha comercial rsrsrsr.
Aí, tocou o telefone e pedi ao Maluf para atender. Era o diretor comercial do IG, que estava falando em nome do Nizan Guanaes. Eu me senti superimportante. O tal diretor era meu amigo, se é que na publicidade temos amigos.
 – Hélcio, o Nizan me mandou colocar uns comerciais da WebMotors no Canal 21 de graça.  
  Como?
– É, sim! De graça. Nós temos um acordo com o grupo Bandeirantes e o Nizan mandou e temos que fazer.
– Como?
– È, sim! Ele tem visto seu canal e me chamou lá e me pediu isso.
Aí, entrei com minha frase celebre da época:
– De graça é no quarto andar, onde fica o Johnny Saad. Aqui no primeiro andar, onde fica o Comercial e o 21, tem que pagar.
O tal diretor, meu amigo, ficou bravo e me disse:
 – Você vai medir força com o Nizan? Deve estar louco!
-Vai bater de frente com o cara?
– Não, querido! O que o Nizan quer são os comerciais que fazemos pela internet, quase em tempo real.
– Hélcio, agora você quer pensar pelo Nizan?
 – Não! Se o Nizan mandou para a Webmotors e viu nosso canal, deve ser o produto que temos aqui, que chama “SP Online”. Com um laptop Apple mandamos de qualquer lugar de São Paulo imagens e colocamos no ar em três minutos.
– Não é isso!
– É isso!
 Vai não vai, convenci-o a entrar na sala do Nizan para perguntar.
– Tá bom – disse ele. Já te ligo.
Imagine, o Maluf escutou toda essa conversa sem pé nem cabeça e me disse:
 Este burro do IG vai ver escrito o nome dele na segunda na minha coluna do Caderno Propaganda. Isso é transição midiática, é convergência.
Foi a primeira vez que escutei essas palavras. Eu disse:
 Nem a pau, Maluf! Vou perder o amigo e ele não entendeu por não ter UHF em casa, tenho certeza!
Meu amigo do IG era bom demais. Era diretor do SBT e tinha sido chamado pelo Nizan para compor sua equipe no IG. Um craque!
Um dia conversando com o Osvaldo Marraccini na época diretor da Band , me disse que a pressão lá era igualzinha. 
Maluf me disse, fazendo seu tipo mau humor cínico:
– Esta não vai me passar, nem fodendo!
Demorei uns dez minutos a convencê-lo,  e, aí,  me disse:
– Tá bom menino, vamos trabalhar. Não ganho nada para fazer esta coluna( 4 minutos semanais), mesmo. Não posso perder tempo.
Voltamos à piada da TV Gazeta e ele me perguntou se eu tinha conseguido falar com o Bertulli.
– Lógico, em julho!
– Em julho, por quê?
– Porque já estávamos faturando um milhão do dólares e o Bertulli já era meu amigo.
– Qual é a piada?  
Tocou o telefone de novo. Era o meu amigo, diretor-comercial do Nizan, e não do IG (rsrsrs...). Já estava até preocupado, pois o Maluf não tinha papas na língua e ele não iria deixar de publicar na sua coluna o resultado do telefonema, de jeito nenhum!  Mesmo que me perdesse como amigo e contratante.
Mas, para minha felicidade, meu amigo falou com o Nizan e viabilizamos, por seis meses, seis entradas diárias direto do WebMotors, de três minutos, em tempo real. O Marcelo Cesário hoje na HBO é que treinou os editores do Webmotors foi a primeira ação via internet na TV . Os meninos da WebMortors faziam as ofertas quinze minutos antes das horas cheias como se fossem as cheias, e entrávamos no ar ao quase ao vivo – tipo, ao vivo motoboy (motolink com delay de 15 minutos), coisa que já tinha feito muito em outros canais. Mas em 1998, pela internet, era um luxo.
Maluf adorou. Acreditou que meu amigo era bom mesmo e não falamos mais sobre o assunto – e ainda me viu faturar  15 mil dólares mensais do Nizan. Eu, que já era uma craque para o Maluf, virei herói. Só fiquei com medo de ele ir até o IG e tentar tomar o dele também – coisa que não aconteceu; ele me respeitou e não foi lá.
– Mas Hélcio, que piada é essa que não acaba, sobre o tal Bertulli? – perguntou Maluf, impaciente. Acabei de escutar a melhor do dia e você não vai me deixar publicar. A da TV Gazeta tem que ser boa mesmo.
– Em julho do mesmo ano em que entrei na TV Gazeta – respondi – minha equipe já faturava o milhão de dólares por mês, como já te disse.
E continuei:
– Estava na JWT com o financeiro, negociando um BV. Ainda não havia celular, e como os contatos deixavam o roteiro do dia com a secretária, a Tereza recebeu uma ligação do Bertulli, puto, que estava no Banco Safra negociando umas promissórias e o gerente não as queria descontar. A secreta, preocupada, sabendo da truculência do Bertulão, passou o telefone da JWT.  Aí, começa a piada:
“ – Hélcio, eu estou aqui no Safra com umas promissórias e o gerente não quer descontar. Você vendeu 40 mil dólares para uma lanchonete o mês passado?
– Eu, não!
Ele, que me chamava carinhosamente de Gordinho, mudou o tratamento.
– Sim, Hélcio!
Pensei comigo: ‘Como vou explicar esta loucura para alguém na Fundação’.
– Mas como chama essa lanchonete?
– Pera aí, vou ver – disse Bertulli
Dois minutos depois, Bertulli entra novamente na linha e fala bem baixinho o nome da tal lanchonete:
– Restco, Indústria e Comércio de Alimentos.
– Restco é o McDonald’s – respondi baixinho também.
E ele me disse, baixinho:
– Tá bom, Gordinho – e desligou.”
No cadastro de clientes da TV Gazeta, eles nunca haviam faturado o McDonald’s. 
O Maluf não deu risada. Ainda queria publicar a história que havia escutado sobre o Nizan.
Moral da história: morri em 2000 reais por mês com aquele quadrinho de quatro minutos no “Imprensa na TV”, que, até então, não pagava nada. Justíssimo , acho que eu fui o único cara que o Maluf trabalhou uns seis meses de graça.
Burro não era, o tal diretor comercial do IG, o competentíssimo Mauricio Palermo, e sim eu,  que o deixei  o Maluf escutar minha conversa com o pupilo do Nizan.
Achava-me o bom por vender  lebre por gato, mas o Maluf, no jornalismo e na publicidade, era colunista da velha guarda,  que  para sobreviver   produzia  e vendia  gato por gato e lebre por lebre, em seu jeito ético, sabendo  a medida exata e o limite entre as duas vertentes do negócio jornalismo e publicidade.
Bem, amigos, tive a oportunidade de viver com grandes pessoas na comunicação. São 4h30min da manhã, e a Rose de Almeida(pupila do Maluf e jornalista do trade publicitário)  me pediu este comentário sobre nosso querido Maluf à 1h30min. Vi no Facebook que ela estava on-line e a mandei dormir, que o Cascão marido dela e publicitário também, estava bravo com ela. Logo em seguida, na segunda frase de minha conversa,  escrevi uma das cem melhores frases do meu  falecido amigo Otto Lara Resende: “Não sou imbecil por completo porque tenho insônia”.
Por isso, estou aqui, fazendo esta homenagem ao nosso querido JC Maluf. E acabando às 4h30min da manhã.
Meu dia amanhã vai ter o humor do Maluf. Parabéns, meu querido,onde você estiver! E para a Rose, que está buscando histórias lindas a respeito de um pensador ilustre com quem tivemos a oportunidade de viver e aprender neste mundo competitivo da propaganda e do jornalismo.
Hélcio Henrique Vieira, 54 anos, foi diretor-comercial de diversos veículos em diversos meios e publisher em diversas empresas de comunicação. Hoje, se reinventa estudando mestrado em Cinema para justificar sua tese “Convergência Social pelos Processos e Linguagens Audiovisuais”.
E esta foi a primeira história que escrevi e virou este blog semrura888 que tem milhares de pessoas que leem todas as semanas há 24 semanas. Quase 6 meses .  Obrigado Rose de Almeida.

Valeu Maluf !!!!! .

domingo, 9 de setembro de 2012

Presidente acordadão e eu dormindo na recepção.



Esta história deve ter acontecido em meados de 1999. O mercado já tilintava com e-mails e as primeiras comunicações via web e não mais por fax – eu sou da época do telex e sempre  arrumava tempo para, semanalmente, conversar com o mercado sobre projetos e informação. Eu chamava isso de “mídia no mídia” (rsrsrs...). Muitos ou quase todos os meus amigos são dos negócios e amizades à parte. Já disse um publicitário carioca: “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. (Eu o vi no Jô um dia, ficou famoso por isso.)

Mantive durante toda a vida profissional uma newsletter que enviava de onde estivesse, da revista Imprensa 1988, por Telex, e já no Canal 21, AmericaEconomia /Bloomberg  e TV Salvador( 1996 a 2011), via Web.

Muitos me falam que não sabiam que escrevia, e eu escrevo desde sempre com a ajuda de um revisor, é lógico. Imagine, fiz vestibular para publicidade quando era 1 para 1 (rsrsrs...). Foram meus revisores: Gabriel Priolli, Ricardo Kotscho, Paulo Marcun, Manoel Canabarro, Carlos Nascimento, Marcos Coelho, José Occhiuso ,Ana Maria Tahan  entre outros – um dia eu tinha que aprender a escrever.

Lembro-me de ter marcado uma reunião com o então diretor de Mídia da agência Leo Burnet, o Paulo Gregoraci.  A patroa dele, a Verinha, e eu trabalhamos juntos na DPZ ( 1983), e sempre tive uma admiração incrível por ele, sem falar na competência do cara.

A propósito, a Leo tem uma história bem legal. Foi fundada nos EUA em plena crise de 1929 Seu dono, o próprio Leo, já famoso e criativo, chamou a mídia do trade para sua inauguração e como não tinha grana colocou umas maçãs numa cesta para receber os convidados. Um dos jornalistas escreveu no dia seguinte que a agência viveria até que as maçãs se estragassem, e não foi assim, né?Até hoje quando você visita a Leo tem uma cesta de maças lindas na recepção.

No meio da reunião, percebi o quanto o Paulo sabia de meus passos. Ele comentou sobre minha forma de trabalhar com as news, que sempre me ajudaram nas conversações com o mercado de mídia e os clientes dos departamentos de publicidade das empresas. Eu era ligado nele, mas não o imaginava ligado em mim.

Recentemente, descobri que esse diretor começou a trabalhar com treze anos de idade, com um curso no Senai. Imagine, o cara hoje é um dos presidentes da McCann, uma das maiores do mercado.

Como tenho insônia há muito tempo, sempre dormi nas recepções de agências. Já contei aqui dos dois gerentes que tive e que ligavam para ver se tinha ido às reuniões. E quem me contratou quando dormia na Leo depois do almoço (rsrsrs...).

Costumo usar uma das cem melhores frases do meu amigo Otto Lara Resende: “Não sou imbecil por completo porque tenho insônia”. O Otto era do conselho editorial da revista Imprensa e eu, menino de trinta anos, convivi com ele. Todos se lembram de um monte de frases dele, eu me lembro dessa.

 

E tanto na Leo quanto na McCann tive o desprazer de ser pego dormindo na recepção – é, foram anos e anos de recepção (rsrsrs...)!

Uma das melhores dormidas foi na DM9, ainda no Itaim, quando as recepcionistas eram duas gêmeas negras e uma delas me acorda e eu pergunto onde estava.

Quando cheguei à TV Gazeta de São Paulo, o Roberto Avallone,  apresentador do “Mesa Redonda”, me chamava de Jack Nicholson, pois ainda tinha os óculos escuro que disfarçavam minhas dormidas nas agências e congressos (rsrsrs...). 

Na Leo, arrumei um emprego com o Jonhy Brito, do JB. Já falei disso, sempre o Oscar Osawa dava canseira na recepção (mas atendia sempre, o querido Oscar).

Estes dias estive com ele (agosto 2012), o Paulo Gregoraci, e o achei o mesmo cara que conheci muitos anos atrás. Tão logo cheguei à reunião, falou-me deste blog, que daqui a três semanas fará seis meses, que encho o saco de todos vocês do mercado publicitário e alguns amigos de outras áreas. E para não ficar para trás, contei da primeira vez que ele me falou da forma como converso, desde o JB e a Imprensa, e que quando estou escrevendo sempre me lembro dele, e é verdade.

O mercado hoje fala da importância dos mailings/data base que a era digital nos proporciona e seus cruzamentos e as particularidades do consumidor e como falar diretamente com quem compra .Isso não é novidade para nós. 

Grande Paulo Gregoraci, e eu nem imaginava que você começou a trabalhar com treze anos!  

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Dois do Mensalão

 

Esta história se torna atualíssima, pois estão envolvidos nela dois personagens que nestes dias não saem dos noticiários políticos e policiais. São publicitários mineiros que eram meus clientes na década de 1980, em Belo Horizonte, e jamais imaginariam, na época, em que iriam se meter na história da publicidade e da propaganda.

Estamos falando de 1986 ou 1985, eu, contato na Globo Minas. Era o começo do desmoronamento da guerra fria, e isso é importante, pois falaremos dos Jogos da Amizade que aconteceram na Rússia, em Moscou, e em Los Angeles, nos EUA.

Os Jogos da Amizade faziam parte da aproximação dos dois países poderosos, que acertaram fazer uma Olimpíada particular para comemorar o sucesso de suas negociações políticas.

A Rede Globo comprou o evento e nós tínhamos que vendê-lo, e foi o que eu armei com o único cliente em condições de comprar algo valendo na época um milhão de dólares, a Tecelagens Santa Rosa.

A agência era a SMP&B, na época, donos, o Cristiano Paz e o Mauricio (que alguns anos depois sofreu um acidente de moto numa trilha e foi decapitado por um arame farpado ). O Ramon Hollerbach  era na época o diretor de atendimento da agência do Cristiano e do Maurício.

A SMP&B naquele ano ia mal das pernas e a salvação era vender os jogos à Santa Rosa  – tarefa difícil de enfrentar naquele momento.  O diretor de mkt, o Vicrota, genro do fundador da empresa, acabara de se separar da filha dele e a confusão estava até nos jornais de BH e Rio, com histórias de sequestro da neta e uma lavagem de roupa enorme para os costumes de uma família do interior do estado do Rio, na cidadezinha de Valença.

O fundador da Santa Rosa nos receberia, mas teríamos que levar o diretor de mercado da Globo Minas, o Sinval de Itacarambi Leão, que, justamente no dia marcado, tinha sido convidado para um almoço com o então governador de Minas, Tancredo Neves – ao qual, em hipótese alguma, faltaria. Estávamos na iminência de ele ser o futuro presidente do Brasil, e o Sinval, como bom partidário das esquerdas, me disse que eu arrumasse outro dia. Tentamos, mas o cliente estava cheio de compromissos e aquele dia era perfeito, pois no dia anterior haveria um leilão de cavalos na fazenda onde o Sr. Santa Rosa iria nos receber.

Numa sacada rápida, convenci o Cristiano Paz e o Maurício a alugar um avião, sairíamos de manhã cedinho e entregaríamos o Sinval no palácio para o almoço, às 12h30min. Eles relutaram, pois estavam sem grana, mas eu os convenci de que não seria o aluguel de um Comander (nome do avião alugado da Líder Táxi Aéreo) que iria fazer diferença para quem estava com falta de grana. Se fechássemos o negócio, os 20% e o BV salvariam a SMP&B.

Quem pode imaginar a agência do mensalão sem grana, em 1985.  Quem sabe, se esse negócio não saísse, eles estariam fora desse imbróglio político em que hoje estão?

Bem, às seis horas da manhã subimos no avião, o Sinval, o Cristiano, o Ramom, o atendimento, o Rodrigo Simões, e eu. Viagem agradável; descemos no aeroporto de terra de um quartel do Exército em Valença, e lá já nos esperava um carro da Santa Rosa.

Desculpe, não me lembro do nome do dono da cidade (rsrsrs...) , que, naquele dia, estava feliz da vida, havia comprado um cavalo por quinhentos mil dólares, que era seu sonho de consumo.

Logo que chegamos, lembro-me daquela casa linda e cheia de quadros de cavalos. Não vimos a compra, mas em sua sala já estava a escultura do garanhão comprado no dia anterior que o ex-dono deu de presente ao comprador.

Conversamos bastante e em um determinado momento o Sinval fala do almoço com o Tancredo naquele mesmo dia e da oportunidade de a Santa Rosa comprar o patrocínio de um evento internacional. Disse que a Globo estava levando duzentos profissionais e que a cobertura seria um sucesso.

O Sr. Santa Rosa fala de seus problemas sem o mkt e os rolos que isso estava causando em sua família e em sua empresa. O Sinval compara os valores do patrocínio com a compra do cavalo na noite anterior.

Em um determinado momento, o Sinval fala que até alugou um avião para ver seu amigo empresário, coisa que era mentira – quem havia alugado era a SMP&B.

Tínhamos uma hora “x” para sair dali, para o avião chegar antes do almoço com o Tancredo. As coisas não foram fáceis. Não saímos de lá com o patrocínio fechado, ainda sofreríamos dias para aquilo acontecer.

Foi difícil para os pilotos decolar o avião daquele aeroporto de terra. Arremetemos umas duas vezes antes de subir.

Na semana posterior, o Cristiano ligava diariamente para o Sinval. E eu era convocado o dia todo na SMP&B, na sala do Cristiano.

Foram tantas as ligações para Valença que seis dias depois fechamos o patrocínio do evento. No nacional, só a Santa Rosa (BH) e a Bacardi (RJ).

O evento para o qual falamos que mandaríamos duzentos profissionais na maioria das transmissões deixava vazar o off em inglês; os esportes coletivos do Brasil, vôlei, futebol, basquete, trouxeram quase nada de medalhas. Um fiasco!

Para o cliente, foi mais ou menos. As audiências foram boas para a agência e a Globo – uma salvou sua pele e nós batemos a meta.

Como já disse acima, imagine se esse negócio não sai e a SMP&B quebra! Não haveria mensalão e Marcos Valério, que, naquela época, devia ser vendedor de imóveis ou coisa assim, nem existiria hoje.

Em 1986, voltei para São Paulo. Nunca mais vi a Santa Rosa no ar, mas o Cristiano e o Ramon são personagens da história mais negativa da publicidade brasileira. Estão no Jornal Nacional todos os dias.  O Marcos Valério foi publicitário só no mensalão; antes, ninguém havia conhecido o tal careca.