terça-feira, 8 de maio de 2012

Olho d’água


Fiquei seis meses morando na Califórnia em 2001, logo que sai do Canal 21. Trouxeram um gaúcho para cuidar do canal de São Paulo, e a primeira coisa que ele queria que eu vendesse era na Assembleia dos Deputados, um projeto igual ao que ele vendia em Porto Alegre. Para nós, que abríamos a câmera nas CPIs, ia ficar difícil fazer o que o Bira queria. Não duramos juntos três meses. A história da minha saída não é essa, mas a gota foi o Bira.
Quando voltei, montei a HV2. Fisicamente, ela já era um talonário há dez anos, e seria um escritório, como o foi, por doze anos mais. Inaugurada em 11 de setembro de 2001, até que viveu bastante e vive até os dias de hoje, agora, como um home office.
Meus primeiros clientes foram Shoptime, Siga Bem Caminhoneiro, Diário Rural e o núcleo de TV da antiga Escola Paulista de Medicina.
Iríamos começar na Cobram, do Alexandre Corte, como sócios, mas na terceira semana a irmã dele deu um chilique por causa de umas coisas de uns vinte anos que estávamos jogando fora e aí fomos pra Vila Nova Conceição, lugar muito mais adequado e centralizado para o atendimento das agências de publicidade. O Alexandre continuou sócio, mas a irmã colocou fogo nos dois anos em que estivemos juntos. Eu quebrei o tendão de Aquiles um ano e meio depois, e as coisas acabaram se desfazendo. Segui solo, muito mais adequado ao meu temperamento. (Ah, não posso esquecer! Sabe aquilo que falam: na separação vocês vão quebrar as pernas um do outro? Aconteceu comigo, realmente. Separei-me num mês; no outro, quebrei o tendão. Há quem diga que foi praga dela... rsrsrs.) Naquele momento, até que convidei o Ricardo Santos, exato um ano depois – ele começou no dia 11 de setembro de 2002, e foi aí que percebemos que abrimos o escritório no Dia D. Precisávamos tanto dar certo que nem percebemos nossa inauguração.
Imagine, com pouca grana comecei a marcar reuniões com todos os amigos mídia e clientes! Era a primeira vez que era dono do meu nariz mesmo, orgulhava-me de ter mandado diversos patrões embora e depois descobri que ser dono não era tão bom como ser empregado. Principalmente, sendo um talonário em que o patrão pagava tudo e eu só o imposto. Pois pagar tudo e o imposto é para quem é macho no Brasil, sempre o governo será majoritário dentro da sua empresa.
Mas a história se refere à agência Giovanni, da qual o Boca (Fernando Sales) era o diretor de Mídia.  Ele é meu amigo, trabalhamos juntos na DPZ.
Marcamos logo após o almoço. A agência tinha mudado de endereço, era ali na avenida Nações Unidas (na marginal Pinheiros), atrás da Berrini.
A HV2 tinha uns dois meses e ainda pouca gente fazia negócios com nossos representados.
O Boca me deu uma “canseirinha” na recepção, mas serviram cafezinho e água... rsrsrsrs. Aí, a secretária ou a recepcionista me chamou e deixou a porta aberta.
Sem perceber que entre a sala e eu havia um olho d’água, fui andando e caí dentro da piscina, de terno e gravata. Foi à loucura a agência. Vieram todos ver a catástrofe que eu desenhei.
O Boca me atendeu – me deram água com açúcar, café, o garçom rindo a beça –, me ajudou a me secar e fizemos uma reunião meia boca, mas fizemos.
Amigos, não vendi nada e passei uma vergonha danada!
Mas teve uma coisa muito boa. Quando cheguei ao escritório da HV2, todos os cinco contatos já haviam recebido ligações do mercado contando minha aventura na Giovanni.
Moral da história: cai dentro d’água e a HV2 caiu para dentro do mercado. Dei sorte.           





terça-feira, 1 de maio de 2012

Trabalhar na DPZ era um barato (a)


Depois dos três primeiros anos como assistente na TV Globo São Paulo, fui convidado pelo Reinaldo Postolacchi para ser comprador de mídia na DPZ – integrei-me à equipe da Lucélia, da   Riva e do João Carlos. Naqueles anos, éramos a número 1 do mercado; ganhávamos em faturamento das multinacionais Mccann, JWT e Y&R. O João saiu cedo e foi para a Manchete, que acabara de abrir, e em seu lugar entrou o Manuel Nascimento, que veio da NovaAgencia  e a quem quero fazer uma homenagem aqui: foi  um dos melhores profissionais de mídia do país, aprendi muito com o Mané. Além de fazer seu trabalho, nos ajudava e sempre foi fiel a seus clientes e às empresas em que trabalhou;  foi um dos mídia que fez a WBrasil do Washington brilhar –  ele entrou lá no início da agência.

Nossa equipe recebia todos os veículos. Lembro-me bem que o Magrão, como era chamado o Reinaldo, pegava forte e fazíamos as propostas girar na agência. Pesquisávamos o que o mercado tinha de novo e achávamos tudo para o planejamento e a criação.

Fomos os primeiros a colocar bus door em quadricomia – deu a maior merda –, fomos os primeiros a pôr anúncios coloridos na “Folha” – também deu diversas merdas o Frias brigou comigo nos 3 primeiros anúncios . Placas do JHavila nos estádios , comprávamos até sem autorização do cliente, como na primeira final do sub-18, quando compramos para o Itaú e a Vulcabrás porque a Globo só decidira às 19h e a Tania,  que depois virou Nara (ousada aquela menina), nos procurou e, numa loucura, compramos (Wilson Ferrari - Itaú e Cauby Vasconcelos- Vulcabrás)  sem os clientes saberem. Eles viram no ar às 22h30min. Nossa  sorte foi que o Brasil ganhou,  e a audiência atingiu 45 pontos ou ainda mais. Lembro-me até de uma carta de um dos DPZs falando de nossa ousadia e oportunidade –   aquilo também poderia ser a rua , mas não foi;  foi digno de elogios.

E o mercado sabendo disso, a cada dia mandava mais propostas, e tínhamos que começar cedo e terminar tarde, todos os dias.

Era a época do pé de meia do Itaú e tinha um cara que ligava todos os dias para a secretária, a Sueli (lindona, mas com o Vaness vencido sempre), e dizia que queria falar com o comprador de mídia do banco. Como seu palavreado não era de veículo e sim de mecânico de veículo, a Sueli o tesourava e me contava, até que um dia pedi para passar a ligação e perguntei-lhe qual era a ideia, e ele me disse: “Se lhe contar, não vou ter como receber de vocês”.  Aí, eu falei:  “É lógico!”. E ele nunca mais ligou.

A equipe de planejamento também tinha seus craques, o Flavio Nara, o Paulo Onken,  supervisores, e os planejadores Vanderlei, Fernando Sales, Eliane Zacarias, Wilsinho Ferrari (devo estar esquecendo alguém, me desculpe). O Valdemar Listenfeld, o diretor de mídia da agência que mais faturava no Brasil.

Como arriscávamos, todos queriam estar lá com seus projetos, suas propostas, almoços – todos queriam estar com os compradores da DPZ.

Como vinha da Globo, nossas reservas foram as primeiras que chegaram à Globo com as SRTs (impresso de preenchimento manual). Para facilitar a vida dos assistentes da Globo, já mandávamos prontas as planilhas, que eram montadas a partir das PIs que mandávamos. Isso facilitava a entrada de nossas reservas;  hoje é assim, as reservas são feitas pelas próprias agências .

A vida era boa naquela época de DPZ. O computador já existia, mas não mandava na gente, e  a gente ainda mandava no computador (rsrsrsrs).

Um belo dia, de tanto tentar marcar uma reunião com o comprador do Itaú, um certo sobrinho do dono da Le Postiche, que estava abrindo um departamento de brindes,  conseguiu .Usou o nome do Alfredo Luiz dos Santos ,gerente de publicidade do Itaú .Nem consultei o Alfredo sabíamos o que cada um pensava e eu estava ali para trabalhar.

Ele confundia mídia com mídia em brindes e não deixava de ligar todos os dias.

Para não atrapalhar o dia, pedi à Sueli para marcar na segunda bem cedo, umas 8h30min, os veículos só chegavam a partir das 10h, na segunda.

Quando cheguei, o rapaz já estava no sofá em frente às quatro minúsculas salas no primeiro andar da agência. Nós ficávamos de costas para a Cidade Jardim, nas salas cabiam o comprador e no máximo dois vendedores; quando um planejador participava da reunião, tinha que ficar em pé.

O rapaz estava com uma mala enorme de viagem, das maiores que existem. Entramos na sala com aquela mala, o sobrinho e eu. A sala pequena,  tivemos que fechar a porta e aí ele começou a abrir aquela mala e tinha outra dentro e diversos brindes dentro dela e aí o inesperado: duas grandes baratas saíram de dentro daquelas malas, naquela sala pequena; um megabarulho, e uma das cadeiras travou a porta, e a secretária a Sueli tentando abrir a porta, achando que estávamos brigando , até que conseguiu! E nós dois, um colado na janela e o outro atrás da porta aberta, e as duas baratas voadoras dentro da sala.

Ele dizia que as baratas estavam na sala e eu dizia que as baratas estavam dentro da mala. A Sueli também entrou na discussão – e as baratas estavam dentro das malas.

Rimos o dia inteiro desta aventura no 1° andar da DPZ. Eu jamais brigaria com um contato; foram eles que fizeram nossos nomes no mercado. O barato ou a barata morreu ali.

Recentemente, algumas agências colocaram mídias para atender veículos, mas sem a magia daqueles tempos em que o barato era atender a barata.    


 


 

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Igual a Publicidade


Estamos falando de 1988. Havia chutado o balde na revista Imprensa, na qual era o publisher. Tínhamos acabado de pôr todas as contas em dia, e não mais descontávamos duplicatas para fazer dinheiro. A inflação naquela época chegava a 80% ao mês; o Dante Matteusi, que também era sócio, voltou da Record na primeira equipe da administração do Edir Macedo e descontou todas as promissórias, e foi jogar o dinheiro em Las Vegas. Era um péssimo jogador de pôquer. Para variar, o cassino ganhou. A Feeling Editorial, que na época editava a revista Imprensa, ficou sem dinheiro, sem o publisher e sem o diretor de Redação, o competentíssimo Gabriel Prioli, que chutou o mesmo balde no mesmo mês.

Sem emprego, tentei ser sócio em uma agência de publicidade, com o Jorge Medauar e o Mansano. Minha vocação, entretanto, era mesmo o comercial, mas era bem claro na minha cabeça que com 33 anos ainda viriam várias experiências que definiriam a vida profissional.
Para sobreviver fui à luta e desenvolvi alguns projetos. Ao invés de ir atrás de clientes, venderia publicidade em páginas “alheias”. 

Marquei uma reunião na editora Globo com aquele que até hoje é meu parceiro de café, Luiz Carlos Stein, então diretor de Publicidade das revistas femininas. Em 15 dias andei pela rua Padre Antonio José dos Santos, no Brooklin, e vendi uma página dupla para diversos clientes proprietários de lojas. Ganhei um dinheiro com o qual pensava em passar o Natal, janeiro e fevereiro, meses difíceis.

Quando entreguei o Pedido de Inserção (PI) ao Stein, ele me levou à sala do José Roberto Sgarbi, diretor comercial da editora. Ali se encontrava o Pedro Barbastefano, diretor de publicidade masculina. Os três diretores me arrumaram uma mesa e deram um dos melhores trabalhos que tive nos 33 anos de profissão. Não tinha salário, não tinha sala, não tinha cargo. Eram 10% de comissão sobre o que vendesse.

Passei seis meses sem faturar um real, mas aí comecei a ganhar. No primeiro cheque ganhei mais do que a soma do que recebiam Orlando Marques, superintendente, e Ricardo Fisher, presidente.

No dia em que recebi o cheque, o Orlando entrou na sala, ou melhor, abriu a porta, pois não cabia ninguém além de mim e da Ana Lúcia Tavares. Comentou sobre o que eu havia recebido. Retruquei, questionando-o por que não havia passado nos seis meses anteriores, quando eu não havia conseguido faturar um centavo sequer.

O Orlando levou na brincadeira, mas eu e a Ana achamos que seríamos demitidos. Ao contrário, fiquei amigo do Orlando, e anos depois fui por ele contratado na Bandeirantes.

Volto à história que aconteceu em uma ida minha e do gerente da revista Criativa, Jeferson Teane Fullen, para vender uma cota de um projeto meu para a Fleshieman Royal, na agência JWT - Rio.
Chegamos ao Rio e fomos diretamente para o prédio da editora, no Cosme Velho, pegar a gerente e a contato da Criativa. Almoçamos e fomos para a reunião.

Na JWT fomos recebidos pela diretora de Mídia, Maria Rosa Barcellar, que não conhecia, à época casada com Welington Barros, grande amigo da JWT - São Paulo, o que facilitou bastante as coisas na JWT - Rio.
Os quatro fomos encaminhados pela Maria Rosa à sala de reuniões, na qual estavam outras quatro mulheres: sete mulheres, eu e o Jeferson. O projeto era simples: apresentávamos equipamentos hipermodernos para cozinha, da Consul, Sharp e Arno, e uma receita com o fermento Royal.
A equipe de vendas da editora no Rio o considerava fechado, como constatamos durante a reunião.

A cota já estava vendida para o Fermento Royal, e passamos a discutir como colocaríamos o produto no projeto. Estavam na sala o atendimento, a criação, a produção, a mídia, diretora de mídia, contato e a gerente de publicidade. Elas liam a receita que, em determinado momento, pedia duas colheres de Claybom (no Rio eles não denominavam margarina, mas simplesmente Claybom).

Fiz uma única pergunta: a Fleisheman Royal havia comprado a Claybom? Houve um silêncio enorme na sala, e as duas pessoas, de atendimento e criação, saíram sem nada dizer. O Jeferson, sempre muito “discreto”, me disse em bom som que eu havia derrubado a venda. Nem eu entendi inteiramente por que as duas haviam deixado a sala. A diretora de Mídia também ficou sem saber o que falar. Todos estávamos quietos. Dez minutos depois a dupla entrou com o texto, substituindo Claybom por margarina, e não se falou mais sobre o assunto.

Pegamos o pedido de inserção e fomos para o aeroporto. Chovia quase canivete. O Santos Dumont estava lotado, nenhum avião levantaria voo. Tumulto na lanchonete. Eu e o Jeferson fomos tomar um drinque para comemorar a venda. Quando estávamos no terceiro drinque escutamos o nome de ambos no alto-falante. Saímos correndo para o avião. Mas não havia mais assentos marcados. Como fomos os últimos a chegar, o Jeferson, safo, viu um homem gordo (sua barriga ocupava a metade do meu assento) ainda maior que eu numa janela com o meio livre quase na porta do avião. Correu para o fundo e me sobrou aquela poltrona. O senhor gordinho encolheu a barriga e me sentei ao seu lado. Quando o avião estava para decolar, eu e meu companheiro de janela fomos pegar o jornal na bolsa da poltrona. Um olhou para o outro e ele sentenciou: “Vamos conversar...” 

 A situação da Ponte Aérea havia nos enchido de adrenalina. Rapidamente já estávamos conversando, primeiramente sobre chuva e avião. Amigos de voo nunca mais se falam, somente se houver a sorte de caírem novamente no mesmo avião ou na sala de espera. Mesmo assim é bem possível ambos fingirem que não se conhecem.

Em determinado momento, o companheiro de viagem me perguntou o que eu fazia da vida:
- Sou vendedor de publicidade. 
- É mesmo?! Vendedor de publicidade?! Sempre quis conhecer alguém da sua profissão.
 - Por quê?
 - Porque vende um produto igual ao meu.
- O que você vende?
- Vendo dinamite.
- Dinamite?! O que tem a ver com publicidade?
- Custa caro para caralho, você compra e não leva para casa, e se não der resultado tem que comprar de novo.

Ele era um dos dois gerentes de vendas das duas empresas que vendiam dinamite no país.
A viagem foi ótima.

Chegamos a São Paulo e nunca mais vi meu parceiro de viagem, apesar de termos trocado cartões.
O que me sobrou do encontro? Já contei muitas vezes essa história, e todos me perguntam onde a li. Poucos acreditam que foi em um avião da Varig, mas todos acreditam que a maior companhia aérea do país quebrou por falta de passageiros.