segunda-feira, 4 de junho de 2012

Trânsito Livre

Estamos falando dos anos 1997 e 1998, no começo da melhor parte do Canal 21 e sua programação. A Denise Gomes conseguiu algumas vitórias, mas morreu na praia – não por sua culpa. Trabalhar na Bandeirantes  (hoje Band) era difícil,  e ainda deve ser, mas a própria Band conseguiu algumas vitórias e posso dizer que o Canal 21 mostrou em sua composição com a City TV canadense como usar a mesma plataforma para diversas TV em um mesmo lugar. Competência total do Johnny Saad e de relatórios da equipe que foi mapear as emissoras do grupo Davison, a Cyti TV: o modelo de TV Local (o 21), CP 24 horas (a Band News), além de BandSport, Terra Viva e a grandeza que se tornou a multimídia  Rádio  e TV Bandeirantes.

Na época já fazíamos convergência. Transição midiática – e nem o nome era esse ainda. Lembro-me de um laptop Apple, recebimento de um cliente, que ficou na minha sala por quatro meses.  Sem querer, um dia, o Luciano Cury, nosso diretor de Design e Criação pegou o laptop para me ajudar e descobriu que aquele Macintosh poderia enviar imagens que seriam recebidas em cinco minutos. Estava criado o SP On-line no jornalismo.
O José Occhiuso e o Ricardo Kotscho aprovaram de primeira. Depois, vieram no SP On-line para os comerciais, que tinham o mesmo modelo do jornalismo, com flashes diários das salas dos clientes. Conforme vou contando as histórias, vou falando um pouco sobre as aventuras do 21, canal que na minha opinião foi a única coisa legal que se fez nos últimos dez anos de TV, os críticos que me xinguem.
A história começa agora e trata de um projeto com o Scaringela – ele mesmo, o do trânsito de São Paulo – e um profissional da área comercial, o Zeca Pinto, superconhecido do Rio Grande do Sul a São Paulo, ele pode dizer que tem repercussão no Norte e Nordeste (mas acho que acabou conhecendo alguns gaúchos no DF da época ainda do ex do Jânio... rsrsrsrs).
O Scaringela já havia me levado o Trânsito Livre, nome que o Marcelo Capassi inventou na hora, pois o projeto não tinha nome. Na verdade, tinha uma vontade imensa e uma boa ideia do Homem do Trânsito. O resto, o Marcelo do marketing estava me trazendo, e como já havia visto uns dois anos atrás era a cara do 21. No meio da reunião, toca o telefone e a Tereza  me diz que o Zeca tinha tido um infarto. Nem contei para os outros. Em reunião boa não se conta coisa ruim.
Eu havia tomado Xenical – lembra-se do remédio que emagrecia, mas se desse um punzinho, ferrava –  e tinha dado alguns punzinhos minutos depois de ter ligado para o Juca Silveira, que havia entrado no lugar da Competente Denise Gomes. O projeto ia de vento em popa, mas eu não mais podia ir à sala do chefe. O Zeca com infarto e eu preocupado com a cadeira, meu terno, a merda que eu teria que fazer para ninguém notar (pelo menos, naquele dia, pois a cadeira era vermelha e tive que trocar). Ah, a maior preocupação, o infarto do Zeca, não por ele, por mim! O Gaúcho eu sabia que ia sobreviver, mas os dois mídias que me ligaram para saber do Zeca já tinham me perguntado se eu não estava batendo forte demais no menino (o menino é dez anos mais velho que eu). Minha fama era forte, o Zeca tinha que sobreviver para metade dos gaúchos não me linchar. O Marco Aurélio, na época na Nazca, me ligou bravo. “Gordinho matou o velho”, demos risadas, mas fiquei uns dias sem dormir, uns dias por estas palavras.
Ah, fui o último a sair naquele dia! Era comum, mas o estado da cadeira ia me denunciar no outro dia. Minha sorte é que a Claudia Alcântara, minha amiga diretora administrativa, me salvaria. Demorei uns três a quatro dias para contar a ela, mesmo saindo com os diretores várias vezes por semana para almoçar.
O programa foi de vento em poupa. Trouxemos o Osvaldo Oliva da Gazeta, que dirigiu lá o “Gincana Estrela” (outra história).  O único problema: começava às 5h e ia até às 7h, hoje seria um show. Qual era o problema? O Comercial e eu não faturávamos nada na hora, mas ele me alavancava das 7h em diante. O Juca entendia, mas o financeiro queria o dinheiro do horário. Mas conseguimos levar esse programa uns dois anos e pouco no ar. No fim, o Scaringela, mal sabendo que não tínhamos dinheiro para ele, estava ficando bravo – o financeiro também –, mas quando sai de lá ele ainda estava de pé, ou melhor, no ar.
O Zeca ainda ficou uns trinta dias em casa. Sorte minha que não morreu! O Zeca sempre foi bom de papo, um dos poucos a vender o canal – o Márcio Loducca e o Marcelo Capassi também vendiam bem. Quando mandei um e-mail ao Zeca, dizendo que ia contar essa história, ele me mandou um e-mail dizendo que eu era um lord com ele, e que o canal era difícil de vender, mas vendíamos. Imagina se ele morre (estes dias esteve mal de novo; pelo menos, tenho prova de comunicação dele... rsrsrs. Desculpa Gaúcho, perco o amigo, mas aqui fica engraçado!).
Com aquela correria toda e a baixa resistência do Xenical, ainda tínhamos um acordo com o secretário do Esporte da Prefeitura de São Paulo com o Cássio Calazans, hoje na Record, que estava me deixando louco. Não tinha estrutura de logística para o evento. Eu mesmo levava as bandeirolas e os banners do 21 nos eventos. Comprei uma Ranger cabine dupla porque tinha uma caçamba. Ah, um dia ainda levei uma gozação do Johnny Saad, que me perguntou se eu era fazendeiro. Imagina, só tinha um apartamento em Moema!
Uns dez dias depois do Scaringela, que gerou um trabalho de trinta dias para pôr no ar, teve uma corrida de bike da qual tínhamos a exclusividade e os patrocinadores, poucos. Eu na Ranger, na chuva, em frente ao Detran, tinha esquecido a carteira, mas tinha os crachás . Eu em cima do viaduto, colocando os banners e as bandeirolas, um guarda de trânsito me chama e pede os documentos. Rapidamente, mostrei o crachá, e ele nem tchum. Falei para ele que estávamos transmitindo a corrida, que a transmissão já tinha começado. Ele não acreditou. Eu tinha uma TV daquelas Cassio e fui mostrar. Quando sintonizei no UHF 21, não vi os flashes. Liguei para o jornalismo e não sabiam de nada. Aí, peguei o celular – aquela coisa Motorola que não pegava e era um tijolo – e liguei na frente do guarda para o Occhiuso, que me disse que os flashes estavam no ar. Eu disse que não. O guarda, puto, achou que era papo meu. Eu tentando sozinho ver se tinha alguém da Secretaria, mas no viaduto em frente ao Detran, só eu e o mal-humorado guarda. A equipe estava gravando lá no aeroporto, as meninas da redação não viram a ordem e eu na chuva e quase guinchado.
Aí, o super José Occhiuso me salva. Põe a primeira chamada – que deveria ir às 8h, às 10h30min. Mas nem o guarda, nem a Prefeitura, nem os patrocinadores viram nada. E eu  ainda fui no carro do Detran até o aeroporto, com a av. 23 de Maio fechada, com o banner do 21 no carro do Detran. Que lindo o quarto poder! (Meu carro ficou em cima do viaduto do Detran.)
A merda é que peguei uma pneumonia daquelas! Fiquei amigo do supervisor, que me indicou uns amigos no Detran que me ajudaram sempre durante minha estada no 21.


O fim desta história ficou bem legal, salvo a pneumonia. As moças da redação viraram brodinhas. Fizemos ainda uns quatro ou cinco passeios ciclísticos – fomos os primeiros. E eu nunca mais tive multas naquela Ranger e o Johnny tinha razão. Eu nem sabia dirigir direito, por causa do stress daqueles tempos acabei vendendo a Ford ao Cesar de Almeida (que viabilizava na operações nossas ideias), pois achava que ela estava me dando umas dores no braço.


Publicitário sem estrutura é fogo. Tem que inventar e ter em seu CV uma linha escrita: “Tenho muita sorte sempre”. Ah, e o Zeca Pinto esta vivo até hoje, graças a Deus!   

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Futebol na TV Globo SP sempre foi coisa séria.


No final de 1979, fui contratado pela TV Globo São Paulo pelo André Barroso, novo gerente de Opec – Operações Comerciais, que substituía o Fernando D’Avila, e estava implantando as reservas dos comerciais por computadores da CMA – empresa que terceirizava os serviços de informática .Todo o processo era feito manualmente e estávamos ali para tirar o trabalho daqueles que achavam o computador um bicho de sete cabeças. Começava ali minha convergência cognitiva na esfera digital, mas não tínhamos a menor ideia sobre onde iríamos chegar.

Diariamente bombardeados pela antiga equipe sobre os efeitos do computador na vida de todos, criávamos paralelamente uma nova forma de controlar os dados de reservas, checking, falhas, financeiros da já líder de audiência do país.

Os novos contratados, o Galdino (se dizia filho de uma famosa combatente do regime militar), o Ugo Santiago, hoje diretor da Globo, e eu,  jovens e cheios de vontade de aprender e trabalhar, dávamos a vida por aquilo que acreditávamos ser o futuro e nem ligávamos para as falácias dos antigos funcionários da era manual. Lembro-me muito do supervisor que alimentava as fofocas: o Marcos Wilson, grande conquistador das garotas da época, Bozó que vivia falando que se o encontrássemos abraçado a mulher feia, podíamos apartar que era briga. Um dia, depois de anos, parei minha Brasília na porta do parque Trianon e o encontrei abraçado com a mulher mais feia que já havia visto, e gritei: “Vou descer e apartar!”. Perdi o amigo, mas não perdi a frase.

Não posso me esquecer da equipe de suporte de informática da época, que era só de mulheres lindas e cheias de amor para dar. Só não me lembro do nome delas e, por felicidade, comandadas pelo Celso Colli, o primeiro profissional que vi programando um computador.

Em pouco mais de seis meses implantamos as reservas pelo computador. O Marcos Wilson foi mandado embora e todos os outros foram adaptados a suas novas funções. O departamento em vez de encolher dobrou em poucos meses e nós todos fomos sendo promovidos e assumindo cargos dentro da nova estruturação da gerência de Opec.

A Globo São Paulo era divertida, mas com muito trabalho e competitividade. Não era por menos, estávamos na emissora que se preparava para o ano 2000, na época, até no ar com sua campanha SP 2000. Isso significava cursos, conhecimento, network e muita concorrência interna, que faz parte do meu conto.

O RH (Recursos Humanos) organizava um campeonato de futebol de salão nas quadras do Sesc, superconcorrido. Todos os departamentos da Globo SP tinham times e alguns muito competitivos, como do José Carlos Peleias, gerente do Checking, que tinha em sua equipe o Medina e o Silvestre, da Seleção Brasileira, entre outros craques, como o José Eduardo Salerno, o Bomba, que tinha esse apelido por ser explosivo e seu chute, forte e matador .No departamento do Peleias ninguém precisava entender de publicidade –  futebol era o  requisito básico para trabalhar no departamento de Checking da emissora paulista. O Peleias, com bom mineiro, tinha o uniforme de seu time, o Atlético Mineiro, impecável e completo, que fazia seus adversários tremer na base. E com aquele time cheio de craques, todos tinham muitas dificuldades em vencê-lo. Salvo um time da Praça Marechal Hermes, onde ficava a produção da Globo SP, ninguém   fazia frente àquele timão do Checking.

O comercial estava crescendo, já era um prédio na Alameda Santos, ao lado do prédio da Sabesp, e tinha um português, o Sérgio Fernandez, como responsável pelos serviços gerais. Ele começou como garçom nas Organizações Vitor Costa, a emissora em São Paulo comprada pela Globo. Sua histórias do inicio da Globo com o Walter Clark , o Buzzoni,  entre tantos outros, eram de deliciar os novos pretensores desta vida cheia de emoções de uma emissora de TV.

O Sergião, como era chamado, montou um time bem forte do qual eu fazia parte (sempre fui um craque... rsrsrsrs).  Estávamos treinando uns seis meses antes do inicio do campeonato interno e escutando as histórias divertidas do Sergião. Até hoje, o faturamento de muitas emissoras é chamado de basquete, sabe por quê? Na mesa do Walter Clark havia uma cestinha na qual os contatos colocavam as PIs (Pedidos de Inserção ) dos clientes e agências de publicidade. Cada PI que chegava era arremessada na cesta --  a prática em pouco tempo  passou a ser chamada de basquete. Dizia o Sergião que foi o próprio Walter que inventou o nome.

Mas vamos voltar à história do futebol. Acabara de chegar o comunicado do RH sobre as inscrições e o campeonato começaria em poucos dias.

Nas primeiras partidas, tudo lindo. Ganhamos as três primeiras de goleada e nossa quarta partida seria com o poderoso Atlético Mineiro, ou melhor, o time do Peleias. Foi uma semana cheia de intrigas. Apesar do Checking ficar em outro prédio, a guerra estava declarada. Insinuações de lá, insinuações de cá, até o dia do jogo.

Nosso time se chamava Globo Star; nossa tática era que o nosso maior adversário também deveria tremer na base.

E o jogo tão esperado começou. Dez minutos, nenhum gol, quando o Miltinho, com um passe meu, fez o primeiro. Vibramos! A torcida viu na gente um adversário capaz, mas antes de  terminar o primeiro tempo já estávamos perdendo de 2 a 1. Aquilo na cabeça do nosso time foi uma enxurrada. O técnico Sergião trocou dois de nós, incluindo a mim, e desmanchou nosso esquema. Perdemos de 11 a 2. Brigamos entre nós mesmos, e para mim foi o último jogo no Globo Star.

O Globo Star se classificou para a final, e adivinhe com quem? Com o Atlético Mineiro. Eu fora desde a fase de classificação, nem queria saber do campeonato.

A final seria num domingo.  Na véspera, sai com o Ugo Santiago e combinamos de trabalhar no domingo, pois estávamos cheios de reservas e o sistema funcionava mais rapidamente que nos dias úteis, com todos trabalhando ao mesmo tempo.

Marcamos para chegar ao escritório às 12h. Chegamos no horário. O Ugo digitava e eu montava as planilhas para digitação manualmente. Ele, mais rápido que eu, lá pelas 16h resolveu tirar uma soneca debaixo da mesa dos contatos, que era tripla. Eu, que sempre bebi menos que ele, continuei na toada manual de preenchimento. Só nós dois no domingo e o porteiro no térreo até que, o Ugo dormindo, abre-se a porta da sala e eu, branco, cumprimentei: “Boa tarde, Sr. Athaide!”.   Era o diretor nacional de Opec, chefe do chefe do nosso chefe, e o Ugo dormindo debaixo da mesa. Como ele era muito poderoso, não abriu a porta inteira e não viu o Ugo Santiago deitado no carpete, debaixo das mesas. Eu tremi e gaguejei, mas o Antonio Athaide nem percebeu. Imagine, ser mandado embora por estar trabalhando no domingo, ou melhor, um de nós dormindo no trabalho!

Mas a história não termina aí. Era o dia da final do campeonato nas quadras do Sesc. O Atlético fez 1 a 0 no Globo Star e o tempo fechou na quadra. Virou uma briga sem tamanho. Contaram-me que a torcida era toda do Globo Star. Os torcedores fecharam o portão da quadra e o pau comeu. Na segunda-feira, diversos machucados, enfaixados e advertidos. Minha sorte por não ter perdido o emprego naquele domingo foi dupla: se estivesse no jogo, estaria na briga; trabalhando, quase fui flagrado dormindo, pois quando o Ugo acordasse eu iria dormir um pouco também.

Continuei muito amigo do Sergião. Fiquei muito triste quando a Globo o mandou embora, poucos anos antes de sua aposentadoria integral. Eu mesmo o contratei na revista Imprensa. Saí antes dele, e há uns dois anos perdi o contato.

Escutei muitas histórias e outras vivi com o português. Dedico esta história a ele, que me ensinou as loucuras dos bastidores de uma TV. Mesmo sendo o responsável pelos serviços gerais, sabia muito sobre os assuntos internos do inicio da história da, até hoje, campeã de audiência. 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Havaianas em BH




Uma das coisas boas na minha vida profissional e familiar foram as mudanças de cidades e estados que, por ser filho de militar, fui obrigado a aceitar, e, na minha opinião, me deu esta facilidade de conviver sempre com novas aventuras . Tinha que fazer amigos rapidamente na adolescência. Não tinha tempo a perder, pois mudávamos de dois em dois anos.

Na vida profissional morei, além de São Paulo, em Belo Horizonte e Salvador – e também costumo dizer DF, onde fica a Secom (Secretaria de comunicações  do Governo Federal).Todos que trabalhamos no comercial temos que ser local lá, caso contrário não atendemos o maior cliente do mercado (temos representantes, mas na maioria das vezes é DF, é assim, mentirosa até na publicidade e propaganda... rsrsrsrs). Quem vende somos nós – desculpe-me os representantes. (Para um deles até devo uma grana. Vendi muito para ele, perdi o representado e ele não, pois já o atendia depois de mim.)

Esta história se passou em BH, na Globo Minas: Ives Alves, diretor regional; Placeres, diretor de programação, e Sinval de Itacarambi Leão, diretor de mercado anunciante.

Fui para lá convidado pelo André Barroso, com o aval do Evandro Guimarães. Quem me levou lá foi o Evandro, um bom amigo, poderoso, mas se encontrar no aeroporto é um lorde. E o Andre, já era a segunda vez que me contratava.

Um dia, a Diana da Opec São Paulo me chama na sala dela quando estava fazendo um estágio – na Globo SP com a Opec do Celso Coli, na época – e me diz: “Ninguém quis ir para BH. Encontraram você que não está sabendo dos problemas da saída do Marco Aurelio para a cabeça da rede no Rio, e no lugar dele promoveram o Nova Lima.” Lá tem um baita problema, imaginei. Cheguei até a ligar para o Magrão da DPZ, mas, sorte, ele não estava. Nem tinha ido e já queria voltar para a DPZ.

Fiquei uma semana ou duas em São Paulo na Alameda Santos, ainda ali do lado da Sabesp, e fui com a família para a Globo Minas,  do Ives para muitos e do Sinval para o mercado. Me dei super bem com todos lá e o problema é que o Nova Lima (apelido do segundo do Marco e nome de  uma cidade dormitório de BH)não peitava o comercial,  tudo ele ia resolvendo e ninguém na época fazia nada errado. Ele fazia o que mandavam. Tínhamos os protocolos, as regras – e quando passamos a implementá-las conforme a bíblia  da Globo , as coisas foram melhorando.  Éramos o desconto mais alto de toda a Globo. Juro! Apareciam nos relatórios uns 53%. Quando arrumamos tudo, fomos naquele ano o menor desconto do mercado, uns 7% em média. (Ah! Desconto alto na Globo é pior que falar mal do chefe... rsrsrsrsr) Era assim quando trabalhei lá. Ninguém estava fazendo nada de errado lá em BH. O Nova Lima é que com a inteligência dele burlava o Cpultador (computador) –  chamei assim alguns dias,  assim, pois sepultou a vida do Nova Lima.

Mas a história é sobre o maior varejista de calçados daqueles anos de Diretas Já. O Sinval, como todo bom anarquista, levou a equipe inteira do comercial da Globo Minas de terno e gravata para ver o discurso do Tancredo na Praça Sete, em BH.Lá no palanque, o Osmar Santos, Fernando Henrique ,Lula  e todos que fizeram deste país uma democracia.Esse discurso passa sempre na TV e eu falo aos meus filhos que eu estava lá.

Mas vamos à história. A Elmo mandou no mercado de calçados no Brasil durante anos. Para se ter ideia da força deles, nenhuma fábrica de calçados fazia um lançamento antes de estar nas lojas da Elmo, da família Ballesteros. Os grandes fabricantes de calçados, mesmo sendo em Novo Hamburgo ou qualquer outra cidade do país, tinham suas agências de publicidade em BH: Grandene , Kildare, Francesinha, Piccadilly entre muitos outros fabricantes. Ah... as agências eram a Setembro, do Almir; a Arte Vendas; A MPM de BH – do Petronio, mas em BH do Zé Luiz, o mídia da agência.

A prepotência da Elmo era maior que a da Globo na época. Para se ter uma noção do poderio deles, dividiam a verba de publicidade em TV da seguinte forma:  25% Globo, 25% SBT, 25% Manchete e 25% Bandeirantes .

Puseram-me para atender a Elmo. Eu escutava deles que um paulista estava tirando o emprego de um mineiro. Era brincadeira, mas tinha um fundo de verdade, ironia e provocação. Mas fui “ganhando eles”. Jogava bola com eles no sábado na casa de um dos filhos, o Heloi. O Paulinho, que cuidava da publicidade, também cuidava do bolão semanal da Loteria Esportiva, para a qual logo entrei com uma cota. E fui ganhando os caras.

Convenci a direção da Globo de que deveríamos arriscar e vender para eles algo grande, com um desconto enorme (não dávamos desconto à Elmo). Ao mesmo tempo, peguei o maior inimigo deles, a calçados Itapuã, de Cachoeiro de Itapemirim, do Espírito Santo, fabricante e varejista. Fiz uma enorme defesa e vendi para o seu Severino, único dono e o caneta lá, o patrocínio do Cassino do Chacrinha nacional. Por sorte, ele era da mesma cidade do Abelardo Barbosa, o Chacrinha, e patrocinou o Cassino  durante uns oito anos, até o Chacrinha sair do ar. Eu só estive quatro anos em BH.

Com isso, vendi em dezembro, janeiro, fevereiro umas dez inserções diárias à Elmo, o que significou tirar a verba da concorrência dali pra frente. Coisa de ex-mídia da DPZ, frequência e cobertura um dia, frequência e cobertura a vida toda naqueles tempos. Se não as vendas caíam. Eles tentaram, mas aí era tarde. 

Mas vamos para a Elmo! Um determinado dia, como fazia sempre antes da reunião, para arrumar argumentos sólidos, corri à loja onde ficava a sede – até escadas rolantes tinham nas lojas de calçados – e procurei uma sandália Havaiana. Não achei.

Quando estava na reunião com o Paulinho do marketing, perguntei onde ficavam as Havaianas, e ele me respondeu que vender aquelas sandálias de dedo denegriam a imagem da Elmo e que era um produto sem expressão comercial.

Quase a minha vida profissional fiquei na minha  sobre esse assunto. Em BH tinha 27 anos então, 27 anos atrás.  Há uns anos me disseram que a Elmo praticamente não existe em Minas e que a Calçados Itapuã “comeu eles” em Minas e no Espírito Santo – o forte deles eram aquelas sandálias de couro, até hoje vendidas bem na Bahia.

Imaginei que aquele grupo poderoso e dominador nunca seria batido, mas foi. E melhor ainda, as sandálias de dedo passaram a ser moda mundial e a SPASA, antes Argentina, agora tira sarro dos argentinos na publicidade da Havaiana, em vez de tirar uma com quem nem os comprava.    

terça-feira, 15 de maio de 2012

Como negociar suas dívidas




Estava lançando meu projeto em Salvador -- estamos falando de 12 de outubro de 2002 --, e  as semanas que antecederam o Dia D foram de muito trabalho, pois havia montado a equipe de produção, feito muitos testes com apresentadores e conseguido três bons: a Helen Villa Nova ,  o Edd  Balla e a Sheila  Para o departamento de vendas fizemos uma bateria de entrevistas com uns trezentos possíveis vendedores.  Escolhemos oito, mas não estava confiante; nenhum deles me passava força. O melhorzinho era o supervisor, o João, que na primeira semana fez duas vendas: para um primo dele, dono de uma empresa de treinamento de seguranças, e um escritor, o Emmanuel Gonçalves da Silva para anunciar seu livro, “Como Negociar suas Dívidas”.

Quando o João me falou do livro, no ato lhe disse: ”Este cara não vai pagar”. Ele, com jeitinho maroto, tentou me convencer. Eu disse: “João, estamos precisando ocupar as nove horas diárias de TV que temos, e vamos colocar no ar este livro, sim. Mas lembre que não vamos receber”.

Não deu outra! Na primeira semana, falhou (o cheque não caiu).  Aí, deixamos as outras três   pois arrumar clientes era mais difícil que arrumar empregados em Salvador. Até de graça os baianos ficavam desconfiados.  Imagine, de graça, recebi muitos nãos -- não tantos como coloquei no texto, pois já sabia que, na Bahia, de graça é para sempre, e não fiz tantas ofertas free.

Escutei que a TV não existia, mesmo sendo do grupo Rede Bahia, a Globo local (era a TV Salvador; a Globo é TV Bahia). A maioria dizia que era golpe meu. Precisava pôr alguma coisa no ar, e tinha oito pagos e duas ou três permutas – e arrisquei.

O livro “Como Negociar suas Dívidas“ completou quatro semanas e não pagou. O João, toda vez que me via, falava de como o Emmanuel, o escritor, de um cara amável virou um tufão de bravo. Depois que o João saiu, o Carlos, seu substituto, ficou oito anos na empresa. Ele me disse uma vez que o tal escritor até gritar na porta do seu escritório gritava, que não iria pagar os R$ 1880,00 que nos devia.

Aquele caso foi longe. Recebemos os cheques dele banco do Brasil, foram sustados; recebemos os de cinco estrelas do Itaú, da irmã dele, e também estavam sustados.

Um dia, depois de uns quatro anos, vi na minha gaveta em São Paulo aqueles cheques e os joguei fora. Aquilo nunca mais iria receber.

Mas o destino é fatal. No final de 2008, exatos seis anos depois, alugamos a TV Salvador inteira, as dezoito horas de programação. O grupo Rede Bahia estava fazendo investimentos no Jornal Correio, e a TV Salvador não era prioridade. Recebemos uma oferta de aluguel total e topamos.

Naquele momento, alguns amigos antigos meus estavam à frente do grupo: o diretor comercial, Fernando Martos,  o novo gerente de circulação do Correio, Welter Arduini, amigos de trinta anos.

Na semana em que iríamos estrear, o Welter ligou para nossa comercial, minha ex-mulher, Roberta, e indicou um cliente que queria ter um programa na TV Salvador. Ela me ligou em São Paulo, radiante.  Ainda nem estreáramos e já tínhamos consulta.  Disse-me que havia marcado reunião para o dia seguinte. Eu estaria em Salvador e conduziria as negociações.

Cheguei na madrugada daquele dia e ela ainda acordada, pela adrenalina que a TV estava imprimindo na empresa, me contou quem era o tal cliente. Imagine, o Emmanuel Gonçalves da Silva, o escritor do “Como Negociar suas Dívidas”! Não acreditei! Aquele cara, novamente! E eu nem o conhecia, só do ar, há exatos seis anos atrás. Que destino é esse?

Demos muita risada. Contei o caso para a Roberta, e ela até defendeu o fulano, tentando me convencer de que as pessoas mudam.

Pensei ainda antes de dormir: este Emmanuel não sabe que somos nós, de seis anos atrás? Logo pela manhã, matei a charada. Simples! Tínhamos mudado o nome do programa nosso de vendas, que se chamava Mar Shopping Show. Na quebra de sociedade com o Paulo Picchetto, que tinha o programa em Santos e em Santo André, mudamos para CameraExpress. O tal escritor poderia não ter essa informação – ou era cara de pau mesmo.

A primeira reunião,  às 10h, já era com ele, e cheguei umas 9h. Os outros funcionários foram chegando e tínhamos, como sempre trabalhei, a visão de todos. E todos nos viam e ouviam.

Muitos que estavam na sala já sabiam do acontecido com o escritor e a empresa, e não imaginavam o que iria acontecer.

Nós não nos conhecíamos pessoalmente. Ele só havia falado com o João, que não estava mais com a gente, e o Carlos, que vivia no escritório, mas justamente naquele dia tinha uma reunião fora.

Começamos a reunião. O Emmanuel me disse muitas coisas sobre o Welter, que dirigia o jornal Correio, que o havia indicado para falar com os novos gestores da TV Salvador, e que o negócio dele com o jornal era o grande negócio da vida dele, pois a crise financeira que estava chegando no final de 2008 era ideal para que seu livro fosse encartado no Correio, e daria frutos aos dois, ao livro e ao jornal. E eu escutando. Em momento algum, senti que ele imaginasse que à sua frente estava eu, que há seis anos não recebia os R$ 1880,00. A Roberta, na frente dele, escutava aquela prosa toda sem saber como seria o final daquela dívida.

Depois que o Sr. Emmanuel falou sobre sua intenção de estar na TV Salvador com um programa, eu comecei com meu discurso comercial a respeito das regras e preços praticados com produtores independentes. Sem nem concluir direito minhas argumentações, o “senhor” escritor me corta e diz:

– Acho que o senhor não entendeu direito. Estou aqui indicado pelo Sr. Welter para ser contratado pela TV Salvador.

– Contratado pela TV Salvador?, disse eu.

– É, sim!, disse aquele homem enorme. Ele media uns 2 metros aproximados, moreno tipo árabe, com um bigode avolumado que até dava medo.

Aí, entrei de sola na conversa.

– Eu também não estou entendendo direito o que o senhor veio fazer aqui. Imaginei que viria pagar sua dívida conosco?

– Que dívida?, disse o Sr. Emmanuel.

– A dívida que o senhor fez com nossa empresa, a HV2, há seis anos, em veiculações do mesmo livro que o senhor pretende encartar no Correio do meu amigo Welter.

Todos que estavam na sala se viraram para as paredes e o clima ficou sufocante.

Emmanuel disse que não havíamos veiculado eu mostrei para ele onde estavam os programas desde a primeira semana. (A era digital facilitou a vida dos produtores na questão arquivos, rsrsrs...) Aí, ele disse que ninguém havia cobrado. Mostrei-lhe a mesa ao lado da Roberta,  e disse que se ficasse ali por mais uma meia hora o Carlos, seu algoz cobrador, logo chegaria.

O homem ogro e  grande não perdeu a linha, só foi ficando branco e pálido, e a cada resposta sem argumento ia diminuindo na cadeira.

As pessoas na sala nem falavam (a Ana, da Opec, a Roberta, a Jana, prima da Roberta – destas me lembro, mas havia umas cinco pessoas). Ele e eu, educadamente, fomos nos entendendo, e ele, sem armas e ferramentas para sair dessa dívida, disse:

– Pode deixar! Daqui  a dez dias pago o que devo à TV.

E bem baixinho, aquele enorme senhor me disse:

– O senhor não vai contar isso para seu amigo Welter, vai?

E eu disse:

– Lógico que não! É só o senhor pagar sua dívida e pronto! Nem vou lhe cobrar juros, para o senhor conhecer outro bom negociador.

Ele, totalmente atordoado, se despediu. Saiu da sala e todos começaram a rir daquela cena surrealista pela qual todos passaram. É bom lembrar que nem ele nem eu, em momento algum, elevamos a voz ou os ânimos. Fomos os dois duros e  educados o tempo todo.

Ainda estávamos falando sobre o assunto e chega o Carlos, nosso vendas, e lembra-se de outras grossuras do Sr. Emmanuel. Aí, toca o telefone celular da Roberta. Ela atende e passa para mim. Era o Emmanuel, dizendo que em sete dias, ou melhor, na sexta seguinte nos pagaria.

Demos outras risadas e esquecemo-nos do Emmanuel.  Cada um foi pro seu trabalho; estávamos atarefados, iríamos estrear dali a alguns dias, muitas produções.

Todos nós tínhamos compromissos no almoço e à tarde, em diferentes reuniões, quando toca meu celular e a Roberta me comunica que o Sr. Emmanuel havia ligado para dizer que pagaria logo na segunda (isso já era umas 16h de sexta). Rimos um monte da situação, mas o que era bom é que receberíamos um dinheiro perdido. E não entendemos o porquê da pressa dele agora.

No domingo, havíamos convidado o Welter e sua mulher para almoçar em casa. A Márcia não conhecia a Roberta. Lá pelas 13h, chegaram e conversamos sobre sexo, drogas e rock. Aí, lembrei-me do Emmanuel e contei a história toda.

Conversamos sobre aquilo horas e rimos à beça. O Welter não sabia de nada e nos contou o porquê da pressa do “senhor” escritor. Por uma ironia do destino, ele e o Sr. Emmanuel teriam uma reunião na terça-feira. O Welter fora convocado para ir a São Paulo, e a secretária mudou a reunião para segunda à tarde. Combinamos também que não falaríamos nada sobre nossa conversa até o fechamento do negócio dele com o jornal.

Logo às 10h da manhã de segunda, seu Emmanuel apareceu com um saco de supermercado com os R$ 1880,00 e findou sua dívida. Nem recibo quis, imagine!

Ah! Esqueci-me das últimas palavras do Welter no domingo: “Quando fechar o contrato com o Sr. Emmanuel, vou sugerir um último capitulo para seu livro: ‘Como Negociar suas Dívidas, mas ter que pagar quando quiser ter um programa na TV’.”   

terça-feira, 8 de maio de 2012

Olho d’água


Fiquei seis meses morando na Califórnia em 2001, logo que sai do Canal 21. Trouxeram um gaúcho para cuidar do canal de São Paulo, e a primeira coisa que ele queria que eu vendesse era na Assembleia dos Deputados, um projeto igual ao que ele vendia em Porto Alegre. Para nós, que abríamos a câmera nas CPIs, ia ficar difícil fazer o que o Bira queria. Não duramos juntos três meses. A história da minha saída não é essa, mas a gota foi o Bira.
Quando voltei, montei a HV2. Fisicamente, ela já era um talonário há dez anos, e seria um escritório, como o foi, por doze anos mais. Inaugurada em 11 de setembro de 2001, até que viveu bastante e vive até os dias de hoje, agora, como um home office.
Meus primeiros clientes foram Shoptime, Siga Bem Caminhoneiro, Diário Rural e o núcleo de TV da antiga Escola Paulista de Medicina.
Iríamos começar na Cobram, do Alexandre Corte, como sócios, mas na terceira semana a irmã dele deu um chilique por causa de umas coisas de uns vinte anos que estávamos jogando fora e aí fomos pra Vila Nova Conceição, lugar muito mais adequado e centralizado para o atendimento das agências de publicidade. O Alexandre continuou sócio, mas a irmã colocou fogo nos dois anos em que estivemos juntos. Eu quebrei o tendão de Aquiles um ano e meio depois, e as coisas acabaram se desfazendo. Segui solo, muito mais adequado ao meu temperamento. (Ah, não posso esquecer! Sabe aquilo que falam: na separação vocês vão quebrar as pernas um do outro? Aconteceu comigo, realmente. Separei-me num mês; no outro, quebrei o tendão. Há quem diga que foi praga dela... rsrsrs.) Naquele momento, até que convidei o Ricardo Santos, exato um ano depois – ele começou no dia 11 de setembro de 2002, e foi aí que percebemos que abrimos o escritório no Dia D. Precisávamos tanto dar certo que nem percebemos nossa inauguração.
Imagine, com pouca grana comecei a marcar reuniões com todos os amigos mídia e clientes! Era a primeira vez que era dono do meu nariz mesmo, orgulhava-me de ter mandado diversos patrões embora e depois descobri que ser dono não era tão bom como ser empregado. Principalmente, sendo um talonário em que o patrão pagava tudo e eu só o imposto. Pois pagar tudo e o imposto é para quem é macho no Brasil, sempre o governo será majoritário dentro da sua empresa.
Mas a história se refere à agência Giovanni, da qual o Boca (Fernando Sales) era o diretor de Mídia.  Ele é meu amigo, trabalhamos juntos na DPZ.
Marcamos logo após o almoço. A agência tinha mudado de endereço, era ali na avenida Nações Unidas (na marginal Pinheiros), atrás da Berrini.
A HV2 tinha uns dois meses e ainda pouca gente fazia negócios com nossos representados.
O Boca me deu uma “canseirinha” na recepção, mas serviram cafezinho e água... rsrsrsrs. Aí, a secretária ou a recepcionista me chamou e deixou a porta aberta.
Sem perceber que entre a sala e eu havia um olho d’água, fui andando e caí dentro da piscina, de terno e gravata. Foi à loucura a agência. Vieram todos ver a catástrofe que eu desenhei.
O Boca me atendeu – me deram água com açúcar, café, o garçom rindo a beça –, me ajudou a me secar e fizemos uma reunião meia boca, mas fizemos.
Amigos, não vendi nada e passei uma vergonha danada!
Mas teve uma coisa muito boa. Quando cheguei ao escritório da HV2, todos os cinco contatos já haviam recebido ligações do mercado contando minha aventura na Giovanni.
Moral da história: cai dentro d’água e a HV2 caiu para dentro do mercado. Dei sorte.           





terça-feira, 1 de maio de 2012

Trabalhar na DPZ era um barato (a)


Depois dos três primeiros anos como assistente na TV Globo São Paulo, fui convidado pelo Reinaldo Postolacchi para ser comprador de mídia na DPZ – integrei-me à equipe da Lucélia, da   Riva e do João Carlos. Naqueles anos, éramos a número 1 do mercado; ganhávamos em faturamento das multinacionais Mccann, JWT e Y&R. O João saiu cedo e foi para a Manchete, que acabara de abrir, e em seu lugar entrou o Manuel Nascimento, que veio da NovaAgencia  e a quem quero fazer uma homenagem aqui: foi  um dos melhores profissionais de mídia do país, aprendi muito com o Mané. Além de fazer seu trabalho, nos ajudava e sempre foi fiel a seus clientes e às empresas em que trabalhou;  foi um dos mídia que fez a WBrasil do Washington brilhar –  ele entrou lá no início da agência.

Nossa equipe recebia todos os veículos. Lembro-me bem que o Magrão, como era chamado o Reinaldo, pegava forte e fazíamos as propostas girar na agência. Pesquisávamos o que o mercado tinha de novo e achávamos tudo para o planejamento e a criação.

Fomos os primeiros a colocar bus door em quadricomia – deu a maior merda –, fomos os primeiros a pôr anúncios coloridos na “Folha” – também deu diversas merdas o Frias brigou comigo nos 3 primeiros anúncios . Placas do JHavila nos estádios , comprávamos até sem autorização do cliente, como na primeira final do sub-18, quando compramos para o Itaú e a Vulcabrás porque a Globo só decidira às 19h e a Tania,  que depois virou Nara (ousada aquela menina), nos procurou e, numa loucura, compramos (Wilson Ferrari - Itaú e Cauby Vasconcelos- Vulcabrás)  sem os clientes saberem. Eles viram no ar às 22h30min. Nossa  sorte foi que o Brasil ganhou,  e a audiência atingiu 45 pontos ou ainda mais. Lembro-me até de uma carta de um dos DPZs falando de nossa ousadia e oportunidade –   aquilo também poderia ser a rua , mas não foi;  foi digno de elogios.

E o mercado sabendo disso, a cada dia mandava mais propostas, e tínhamos que começar cedo e terminar tarde, todos os dias.

Era a época do pé de meia do Itaú e tinha um cara que ligava todos os dias para a secretária, a Sueli (lindona, mas com o Vaness vencido sempre), e dizia que queria falar com o comprador de mídia do banco. Como seu palavreado não era de veículo e sim de mecânico de veículo, a Sueli o tesourava e me contava, até que um dia pedi para passar a ligação e perguntei-lhe qual era a ideia, e ele me disse: “Se lhe contar, não vou ter como receber de vocês”.  Aí, eu falei:  “É lógico!”. E ele nunca mais ligou.

A equipe de planejamento também tinha seus craques, o Flavio Nara, o Paulo Onken,  supervisores, e os planejadores Vanderlei, Fernando Sales, Eliane Zacarias, Wilsinho Ferrari (devo estar esquecendo alguém, me desculpe). O Valdemar Listenfeld, o diretor de mídia da agência que mais faturava no Brasil.

Como arriscávamos, todos queriam estar lá com seus projetos, suas propostas, almoços – todos queriam estar com os compradores da DPZ.

Como vinha da Globo, nossas reservas foram as primeiras que chegaram à Globo com as SRTs (impresso de preenchimento manual). Para facilitar a vida dos assistentes da Globo, já mandávamos prontas as planilhas, que eram montadas a partir das PIs que mandávamos. Isso facilitava a entrada de nossas reservas;  hoje é assim, as reservas são feitas pelas próprias agências .

A vida era boa naquela época de DPZ. O computador já existia, mas não mandava na gente, e  a gente ainda mandava no computador (rsrsrsrs).

Um belo dia, de tanto tentar marcar uma reunião com o comprador do Itaú, um certo sobrinho do dono da Le Postiche, que estava abrindo um departamento de brindes,  conseguiu .Usou o nome do Alfredo Luiz dos Santos ,gerente de publicidade do Itaú .Nem consultei o Alfredo sabíamos o que cada um pensava e eu estava ali para trabalhar.

Ele confundia mídia com mídia em brindes e não deixava de ligar todos os dias.

Para não atrapalhar o dia, pedi à Sueli para marcar na segunda bem cedo, umas 8h30min, os veículos só chegavam a partir das 10h, na segunda.

Quando cheguei, o rapaz já estava no sofá em frente às quatro minúsculas salas no primeiro andar da agência. Nós ficávamos de costas para a Cidade Jardim, nas salas cabiam o comprador e no máximo dois vendedores; quando um planejador participava da reunião, tinha que ficar em pé.

O rapaz estava com uma mala enorme de viagem, das maiores que existem. Entramos na sala com aquela mala, o sobrinho e eu. A sala pequena,  tivemos que fechar a porta e aí ele começou a abrir aquela mala e tinha outra dentro e diversos brindes dentro dela e aí o inesperado: duas grandes baratas saíram de dentro daquelas malas, naquela sala pequena; um megabarulho, e uma das cadeiras travou a porta, e a secretária a Sueli tentando abrir a porta, achando que estávamos brigando , até que conseguiu! E nós dois, um colado na janela e o outro atrás da porta aberta, e as duas baratas voadoras dentro da sala.

Ele dizia que as baratas estavam na sala e eu dizia que as baratas estavam dentro da mala. A Sueli também entrou na discussão – e as baratas estavam dentro das malas.

Rimos o dia inteiro desta aventura no 1° andar da DPZ. Eu jamais brigaria com um contato; foram eles que fizeram nossos nomes no mercado. O barato ou a barata morreu ali.

Recentemente, algumas agências colocaram mídias para atender veículos, mas sem a magia daqueles tempos em que o barato era atender a barata.    


 


 

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Igual a Publicidade


Estamos falando de 1988. Havia chutado o balde na revista Imprensa, na qual era o publisher. Tínhamos acabado de pôr todas as contas em dia, e não mais descontávamos duplicatas para fazer dinheiro. A inflação naquela época chegava a 80% ao mês; o Dante Matteusi, que também era sócio, voltou da Record na primeira equipe da administração do Edir Macedo e descontou todas as promissórias, e foi jogar o dinheiro em Las Vegas. Era um péssimo jogador de pôquer. Para variar, o cassino ganhou. A Feeling Editorial, que na época editava a revista Imprensa, ficou sem dinheiro, sem o publisher e sem o diretor de Redação, o competentíssimo Gabriel Prioli, que chutou o mesmo balde no mesmo mês.

Sem emprego, tentei ser sócio em uma agência de publicidade, com o Jorge Medauar e o Mansano. Minha vocação, entretanto, era mesmo o comercial, mas era bem claro na minha cabeça que com 33 anos ainda viriam várias experiências que definiriam a vida profissional.
Para sobreviver fui à luta e desenvolvi alguns projetos. Ao invés de ir atrás de clientes, venderia publicidade em páginas “alheias”. 

Marquei uma reunião na editora Globo com aquele que até hoje é meu parceiro de café, Luiz Carlos Stein, então diretor de Publicidade das revistas femininas. Em 15 dias andei pela rua Padre Antonio José dos Santos, no Brooklin, e vendi uma página dupla para diversos clientes proprietários de lojas. Ganhei um dinheiro com o qual pensava em passar o Natal, janeiro e fevereiro, meses difíceis.

Quando entreguei o Pedido de Inserção (PI) ao Stein, ele me levou à sala do José Roberto Sgarbi, diretor comercial da editora. Ali se encontrava o Pedro Barbastefano, diretor de publicidade masculina. Os três diretores me arrumaram uma mesa e deram um dos melhores trabalhos que tive nos 33 anos de profissão. Não tinha salário, não tinha sala, não tinha cargo. Eram 10% de comissão sobre o que vendesse.

Passei seis meses sem faturar um real, mas aí comecei a ganhar. No primeiro cheque ganhei mais do que a soma do que recebiam Orlando Marques, superintendente, e Ricardo Fisher, presidente.

No dia em que recebi o cheque, o Orlando entrou na sala, ou melhor, abriu a porta, pois não cabia ninguém além de mim e da Ana Lúcia Tavares. Comentou sobre o que eu havia recebido. Retruquei, questionando-o por que não havia passado nos seis meses anteriores, quando eu não havia conseguido faturar um centavo sequer.

O Orlando levou na brincadeira, mas eu e a Ana achamos que seríamos demitidos. Ao contrário, fiquei amigo do Orlando, e anos depois fui por ele contratado na Bandeirantes.

Volto à história que aconteceu em uma ida minha e do gerente da revista Criativa, Jeferson Teane Fullen, para vender uma cota de um projeto meu para a Fleshieman Royal, na agência JWT - Rio.
Chegamos ao Rio e fomos diretamente para o prédio da editora, no Cosme Velho, pegar a gerente e a contato da Criativa. Almoçamos e fomos para a reunião.

Na JWT fomos recebidos pela diretora de Mídia, Maria Rosa Barcellar, que não conhecia, à época casada com Welington Barros, grande amigo da JWT - São Paulo, o que facilitou bastante as coisas na JWT - Rio.
Os quatro fomos encaminhados pela Maria Rosa à sala de reuniões, na qual estavam outras quatro mulheres: sete mulheres, eu e o Jeferson. O projeto era simples: apresentávamos equipamentos hipermodernos para cozinha, da Consul, Sharp e Arno, e uma receita com o fermento Royal.
A equipe de vendas da editora no Rio o considerava fechado, como constatamos durante a reunião.

A cota já estava vendida para o Fermento Royal, e passamos a discutir como colocaríamos o produto no projeto. Estavam na sala o atendimento, a criação, a produção, a mídia, diretora de mídia, contato e a gerente de publicidade. Elas liam a receita que, em determinado momento, pedia duas colheres de Claybom (no Rio eles não denominavam margarina, mas simplesmente Claybom).

Fiz uma única pergunta: a Fleisheman Royal havia comprado a Claybom? Houve um silêncio enorme na sala, e as duas pessoas, de atendimento e criação, saíram sem nada dizer. O Jeferson, sempre muito “discreto”, me disse em bom som que eu havia derrubado a venda. Nem eu entendi inteiramente por que as duas haviam deixado a sala. A diretora de Mídia também ficou sem saber o que falar. Todos estávamos quietos. Dez minutos depois a dupla entrou com o texto, substituindo Claybom por margarina, e não se falou mais sobre o assunto.

Pegamos o pedido de inserção e fomos para o aeroporto. Chovia quase canivete. O Santos Dumont estava lotado, nenhum avião levantaria voo. Tumulto na lanchonete. Eu e o Jeferson fomos tomar um drinque para comemorar a venda. Quando estávamos no terceiro drinque escutamos o nome de ambos no alto-falante. Saímos correndo para o avião. Mas não havia mais assentos marcados. Como fomos os últimos a chegar, o Jeferson, safo, viu um homem gordo (sua barriga ocupava a metade do meu assento) ainda maior que eu numa janela com o meio livre quase na porta do avião. Correu para o fundo e me sobrou aquela poltrona. O senhor gordinho encolheu a barriga e me sentei ao seu lado. Quando o avião estava para decolar, eu e meu companheiro de janela fomos pegar o jornal na bolsa da poltrona. Um olhou para o outro e ele sentenciou: “Vamos conversar...” 

 A situação da Ponte Aérea havia nos enchido de adrenalina. Rapidamente já estávamos conversando, primeiramente sobre chuva e avião. Amigos de voo nunca mais se falam, somente se houver a sorte de caírem novamente no mesmo avião ou na sala de espera. Mesmo assim é bem possível ambos fingirem que não se conhecem.

Em determinado momento, o companheiro de viagem me perguntou o que eu fazia da vida:
- Sou vendedor de publicidade. 
- É mesmo?! Vendedor de publicidade?! Sempre quis conhecer alguém da sua profissão.
 - Por quê?
 - Porque vende um produto igual ao meu.
- O que você vende?
- Vendo dinamite.
- Dinamite?! O que tem a ver com publicidade?
- Custa caro para caralho, você compra e não leva para casa, e se não der resultado tem que comprar de novo.

Ele era um dos dois gerentes de vendas das duas empresas que vendiam dinamite no país.
A viagem foi ótima.

Chegamos a São Paulo e nunca mais vi meu parceiro de viagem, apesar de termos trocado cartões.
O que me sobrou do encontro? Já contei muitas vezes essa história, e todos me perguntam onde a li. Poucos acreditam que foi em um avião da Varig, mas todos acreditam que a maior companhia aérea do país quebrou por falta de passageiros.